Pintura

Século XV

OS PRIMITIVOS


Apocalipse de Lorvão

Na pintura portuguesa, as primeiras grandes obras conhecidas datam do século XV. Antes dessa época, apenas justificam referência algumas belas iluminuras medievais (códices de Lorvão, do século XIII, no arquivo da Torre do Tombo, e o precioso Cancioneiro do século XIV, na Biblioteca da Ajuda), a pintura mural da Senhora da Rosa, na Igreja de S. Francisco, no Porto, atribuída a um pintor italiano, e alguns vestígios de frescos em igrejas românicas ou fragmentos de vitrais góticos.


Políptico de S. Vicente de Fora

É na composição conhecida pelo Políptico de S. Vicente de Fora (século XV), existente no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, atribuído a Nuno Gonçalves, que encontramos a marca bem patente do génio, embora o significado e destino da obra continuem a ser incógnitas. 

O Políptico, de que apenas chegaram até nós duas grandes tábuas centrais e quatro laterais, iniciou a escola de pintura portuguesa. É uma obra original pelo equilíbrio e monumentalidade da composição, pela riqueza da cor e qualidade da matéria. A vasta galeria de figuras que povoam os painéis transmitem-lhe um sentido novo de individualização humanística. 


Tríptico de Santa Clara

Fiéis à tradição pictórica em que se integra Nuno Gonçalves são os dois passos dos Martírios de São Vicente, existentes no referido Museu de Lisboa; o dramatismo e o estilo destas telas conferem-lhes lugar paralelo ao do Políptico.


Retrato da Princesa Santa Joana

Outras pinturas daquela época existem em museus nacionais, como o importante Tríptico de Santa Clara (1486), de mestre desconhecido, no Museu Machado de Castro, em Coimbra, o retrato da Princesa Santa Joana, de mestre desconhecido, no Museu de Aveiro, ou o tão sobriamente dramático Ecce Homo, também de mestre desconhecido, no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa.

Os séculos XVI e XVII 

No século XVI, devido às estreitas relações comerciais e culturais entre Portugal e a Flandres, a influência da pintura flamenga fez-se sentir com nova força. Importaram-se, então, numerosas pinturas flamengas (de citar, os núcleos de Évora, Lisboa e Funchal) e, reforçando aquela influência, trabalharam em Portugal alguns pintores flamengos (Frei Carlos, Francisco Henriques), cujas obras estão no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa.


São Pedro, de Vasco Fernandes

A pintura portuguesa do ciclo manuelino, conservando certo sabor flamengo, manteve a sua individualidade nacional, sobretudo na região do centro (Coimbra e Viseu) em que se distinguiram, Vasco Fernandes (O Grão-Vasco, da tradição), autor de magnificas obras como São Pedro e Calvário, e Gaspar Vaz, pintor do Políptico Jesus em Casa de Marta, actualmente no Museu Grão-Vasco, em Viseu.


Retábulo de Santa Auta

Na escola de Lisboa sobressaem os nomes de Jorge Afonso, grande chefe de oficina, Gregário Lopes, Cristóvão de Figueiredo, criador de obras emotivas como Deposição no Túmulo, Garcia Fernandes, os chamados Mestres de Ferreirim e também os anónimos Mestre de Santa Auta, de São Tiago e São Bento, entre outros: Com um sentido mais arcaizante mas cheia de frescura e certa ingenuidade, destaca-se a obra do chamado Mestre do Sardoal (Abrantes).


Retrato de D. Sebastião, de Cristóvao de Morais

O retrato surgiu, desde o século XV, com forte presença na pintura portuguesa - lembre-se a vasta galeria de retratos dos Painéis de Nuno Gonçalves. Esta modalidade de pintura constitui o mais notável trabalho dos pintores portugueses dos meados do século XVI e do século XVII.

Sanches Coelho, Cristóvão Lopes, Cristóvão de Morais, no século XVI, e Domingos Vieira, no século XVII, notável retratista (retrato de Dona Isabel de Moura) foram os principais representantes da pintura nacional desta época. Acrescente-se Josefa de Óbidos (1634-1684), cujas naturezas mortas e pinturas religiosas possuem especial encanto.

Século XVIII

A RENOVAÇÃO ROMÂNTICA


Junot protegendo a cidade de Lisboa, de Domingos Sequeira

Já integrados na corrente barroca, que impôs o gosto pelas grandes composições e novo sentimento cromático, destacaram-se, no século XVIII, Vieira Lusitano, o grande pintor da época, autor dos Painéis dos Eremitas e de Santo António, Pedro Alexandrino e Vieira Portuense.

Domingos Sequeira (1768-1837) foi brilhante figura da pintura nacional, no fim do século, com êxito em capitais como Paris, Londres e Roma; a sua obra revela-o um desenhador e retratista (Os Filhos do Pintor), cuja originalidade o liberta de convencionalismo neoclássico e faz dele um precursor do Romantismo. 


Retrato de D. Maria das Dores Sousa Martins, de Miguel Lúpi

A renovação romântica apareceu tardiamente em Portugal. Foi em meados do século XIX que, nitidamente, surgiu representada na obra do visconde de Meneses (1820-1878), autor de retratos (A Viscondessa de Meneses), em Miguel Lúpi (1826-1883), retratista de grandes qualidades, em Francisco Resende e em muitos outros, como Anunciação (1818-1879) pintor paisagista e animalista que prefigura já o próximo Naturalismo.

Ligados ao realismo naturalista mas, sob muitos aspectos, mais afins do ar-livrismo da escola de Barbizon que do impressionismo, destacam-se os pintores Silva Porto (1850-1893) e Henrique Pousão (1859-1884). O primeiro legou-nos uma vasta colecção de paisagens campestres, banhadas duma flagrante atmosfera nacional. Pousão, cuja morte prematura impossibilitou a realização de um pintor com envergadura internacional, procurou em França e na Itália o apuramento técnico e serviu-se de modelos estrangeiros; ele permaneceu, no entanto, o mais mediterrânico dos paisagistas portugueses. 


Festejando o São Martinho, de José Malhoa

Seus contemporâneos foram José Malhoa (1855-1933) que se inspirou em temas populares (Festejando o São Martinho) e paisagens rurais; João Vaz, pintor de marinhas; o rei D. Carlos (1863-1908), pintor de vigorosas paisagens alentejanas e também de marinhas. 


Retrato de Antero de Quental, de Columbano Bordalo Pinheiro

Um grupo de paisagistas notáveis, em que se distinguiram Carlos Reis (1863-1940), Alves Cardoso e Falcão Trigoso (1878-1950) prolongou a lição renovadora de Silva Porto.

No período de transição do século, ergueu-se a figura de Columbano Bordalo Pinheiro (1857-1929), irmão de Rafael, este o maior caricaturista e ceramista da época.

Columbano foi o grande mestre da luz e da sombra, da intimidade dos interiores, da observação plástica e psicológica dos seus retratos, em que se salientam figuras representativas da vida cultural (Antero de Quental, Eça de Queirós, etc.). Na sua vasta tela O Concerto de Amadores, pintado aos 25 anos, Columbano deu toda a medida da sua envergadura artística, patenteada, também, na pintura decorativa de tectos de salas e de teatros.

Século XX


Auto-retrato num Grupo, de Almada Negreiros

Durante a guerra de 1914-1918, numerosos artistas que viviam em Paris refugiaram-se em Portugal, criando um ambiente cultural muito activo, onde se salientaram as personalidades de Santa-Rita (1889-1918), Almada Negreiros (1893-1970), Eduardo Viana (1881-1867) e principalmente Amadeo de Souza Cardoso (1887-1918). Enquanto se encontrava em Paris, Amadeo iniciou a experimentação das tendências vanguardistas, desde o expressionismo ao cubismo e ao futurismo, tendo sido um dos primeiros pintores do mundo a realizar, em 1912, pinturas abstracto-geo-métricas.


Pintura, de Amadeo de Souza Cardoso

Nos últimos anos da sua curta vida, Amadeo introduziu, no espaço abstracto que criara, a representação de objectos populares, como cerâmicas, bonecas de pano e os próprios frutos nortenhos, com as suas cores vivas.

Eduardo Viana acompanhou as pesquisas cromáticas e iconográficas de Amadeo, e, depois da morte do amigo, aliou a estruturação cézanniana ao seu sensualíssimo jogo de volumes e cores.

Santa-Rita foi o vanguardista mais provocatório, declaradamente futurista. Poucos dias antes de morrer, ordenou que a família destruísse toda a sua obra.

Almada Negreiros foi um desenhador extraordinário e dedicou-se a muitas modalidades: dança, teatro, poesia, romance, ensaio ... Nos seus desenhos e pinturas, as figuras são geometrizadas através de um voluntarioso controlo das linhas e do claro-escuro. Na estilização das silhuetas, nos perfis, Almada explorou todas as possibilidades do desenho linear, onde se conjugam as lições cubistas e neo-clássicas de origem picassiana com o gosto mundano dos anos vinte.


Bailarico no Bairro, de Mário Eloy

As suas grandes pinturas murais, que decoram a gare marítima de Alcântara (1945) e a gare marítima da Rocha (1948), representam a vida quotidiana e as lendas do povo de Lisboa, em composições estruturadas com firmeza.

Lisboa aparece muitas vezes nas pinturas de Carlos Botelho (1899-1982) e nos desenhos de Bernardo Marques (1899-1962). A visão límpida e serena destes artistas é consequência de uma depuração sensível, realizada após uma juvenil prática expressionista.

O mais profundo e constante expressionista foi Mário Eloy (1900-1951), que viveu em Berlim, de 1928 a 1932. Eloy serviu-se emotivamente das cores e recorreu à figura humana para dramatizar os seus pensamentos.


A Partida de Xadrez, de Vieira da Silva

Helena Vieira da Silva (1908) começou em 1935 a realizar pinturas abstractas, que vieram a ter grande influência na Escola de Paris, devido á sua concepção de um espaço ambíguo. A visão de um espaço simultaneamente todo cheio e todo vazio, por vezes com fantasmáticas figuras fugidias, tornou-se angustiante e obsessivo, kafkiano, durante os anos da guerra de 1939-1945. Noutros momentos menos dramáticos, exprime o êxtase da incessante redescoberta das cores e da luz do mundo que a rodeia. A memória dos azulejos de Lisboa da sua infância reflecte-se em muitas das suas composições.


Melancolia, de António Dacosta

Também a memória da infância surge por vezes na pintura dramática do surrealista António Dacosta (1914), nascido nos Açores. Os surrealistas fizeram em Portugal a mais profunda revolução artística, a partir dos anos quarenta, propondo novas técnicas e novas concepções. Alguns adoptaram, de modo muito pessoal, o espaço ambíguo de Vieira da Silva: Fernando de Azevedo (1923), Vespeira (1925) e D'Assumpção (1926-1969). O automatismo psíquico puro preconizado pelos surrealistas fez eclodir o abstraccionismo, lírico. Neste aspecto, o surrealista mais coerente é Eurico Gonçalves (1932), que estuda continuamente a expressão livre das crianças e pratica o automatismo abstracto como um ritual revelador do inconsciente colectivo. A pintura gestual de Eurico Gonçalves redescobre intuitivamente a expressividade dos arabescos ibéricos e das cores artesanais mediterrânicas, dentro de um persistente sentido do maravilhoso.


Heterónimos, de Costa Pinheiro

Entretanto, o abstraccionismo geométrico ressurgiu com Fernando Lanhas (1923) e Nadir Afonso (1920), enquanto alguma pintura figurativa se tornou neo-realista, adoptando temas populistas: Júlio Pomar (1926) e Júlio Resende (1917).

As vias poéticas abertas pelo surrealismo permitiram porém o aparecimento de uma nova-figuração, nas obras de Paula Rego (1935), Joaquim Rodrigo (1912), Carlos Calvet (1928), Bértholo (1935), Costa Pinheiro (1932) e outros, que absorveram liricamente as contribuições das correntes internacionais das últimas décadas, desde a pop à transvanguarda. O lirismo é a característica mais peculiar da pintura portuguesa.

 

 


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