Música
Das Origens ao Século XIV

Iluminura do
Cancioneiro da Ajuda |
Quando Portugal se
constituiu como Nação Independente, em 1140, já a música
representava uma forma de expressão e uma manifestação de
arte, moldada nos cantos litúrgicos da Igreja de mistura
com elementos de influência celta, bizantina, romana e
sobretudo árabe.

D. Dinis |
Paralela a esta actividade
musical da Igreja, deu-se em Portugal uma floração das
formas poéticas e musicais trovadorescas que consistiam em
cantos acompanhados de instrumentos e escritos pelos
trovadores peninsulares no mesmo dialecto, o
galaico-português.
O rei D. Dinis, também
notável trovador, instituiu na Universidade de Lisboa, por
ele fundada em 1290, uma aula de música. Deste período
trovadoresco, que se prolonga até fins do século XIV,
ficaram importantes vestígios nas canções e danças
populares das épocas seguintes e até mesmo da actualidade,
como as maias, as janeiras e os reis.
Séculos XV, XVI e XVII

D. Duarte |
Coincidindo com os alvores
do Renascimento, datam dos princípios do século XV, as
primeiras notícias da prática da música polifónica.
Grande protector das letras
e das artes, o rei D. Duarte (1433-1438), interessou-se
também pela música, tendo nomeado Afonso Vicente seu
mestre de capela.
A música de estilo vocal
acompanhado desenvolveu-se até ao fim do século XV, e teve
em Tristão da Silva, mestre do rei D. Afonso V, e autor da
colecção Los Amables de la Musica, o seu melhor
representante.
Neste período,
verificou-se o aparecimento de uma escola de órgão que se
pressupõe importante, porque foram contemporâneos ou
anteriores de um Cabezon ou de um Frescobaldi, alguns
compositores portugueses como António Carreira, Mateus de
Fontes e Heliodoro de Paiva que escreveram obras para aquele
instrumento. Só em Lisboa contavam-se treze escolas, nos
meados do século XVI. Entre os teóricos distinguiu-se o
grande Vicente Lusitano.

Sé de Évora |
Ainda neste período a
Catedral de Évora tornou-se uma das principais escolas de
estilo a cappella tendo, a partir da segunda metade
do século XVI e ao longo do século XVII, elevado a
polifonia portuguesa a um dos lugares cimeiros da música
europeia com compositores como D. Pedro Cristo (?-1618) e
João Lourenço Rebelo (1610-1661).

«Flores de
Música para Instrumentos de Tecla e Harpa», do Padre
Manuel Rodrigues Coelho |
O grande incremento que a
arte musical obteve durante o século XVII deve-se
essencialmente à protecção do duque de Bragança, D.
Teodósio, e de seu filho, o rei D. João IV.
A par da
produção dos polifonistas portugueses no campo da música
religiosa, houve uma grande actividade dos madrigalistas,
mais dedicados à composição de vilancicos a cappella,
como Francisco de Santiago, Filipe Cruz e Marques Lesbio
(1639-1709), os derradeiros representantes de polifonia
profana de raiz renascentista.
Dos organistas
continuadores da escola do século XVI distinguiram-se
Manuel Rodrigues Coelho, autor do livro Flores de Música
(1620), a primeira obra publicada de música instrumental
portuguesa, e Agostinho da Cruz, autor de Lira de Arco
ou Arte de Tanger Rabeca (1639), o mais antigo
método de violino na história da música.
Séculos XVIII e XIX
A INFLUÊNCIA ITALIANA

D. João V |
A prosperidade económica
de que Portugal gozava no século XVIII, com o afluxo de
ouro do Brasil, proporcionou ao rei D. João V (1706-1750)
enviar para o estrangeiro vários músicos portugueses para
aperfeiçoarem os seus conhecimentos, como Francisco
António de Almeida e António Teixeira.
Em contrapartida, é
contratado um elenco de cantores italianos e Domenico
Scarlatti para mestre de capela e professor dos infantes.

Luísa Todi |
A partir de 1731, data em
que chega a Lisboa a primeira companhia de ópera, dirigida
pelo violinista Paghetti, prolongando-se pelo reinado de D.
José (1750-1777), representaram-se cerca de uma centena de
óperas, tendo chegado a funcionar simultaneamente cinco
pequenos teatros de ópera, incluindo o do Bairro Alto, onde
mais tarde viria a estrear-se Luísa Todi (1753-1833), uma
das maiores cantoras líricas do seu tempo.

Carlos Seixas |
A Música de Tecla
adquire características barrocas com as composições de
Carlos Seixas (1704-1742), organista e cravista da corte,
com uma volumosa obra composta de sonatas ou tocatas e um
concerto para cravo.

Marcos Portugal |
Na segunda metade do
século XVII, sobressaem os nomes de João de Sousa
Carvalho, Leal Moreira (1758-1819) e Marcos Portugal
(1762-1830), cujas criações asseguram o funcionamento de
pequenos teatros régios.

Teatro Nacional
de S. Carlos |
No entanto, uma nova fase da
ópera irá ter início em Portugal com a inauguração do Real
Teatro de S. Carlos (1793) e do Teatro de S. João,
no Porto (1798).

João Domingos
Bontempo |
A música instrumental
sofre, nos finais do século XVIII, uma viragem digna de
relevo com a actuação de João Domingos Bontempo
(1771-1842). Depois de uma brilhante carreira de executante
em Paris e Londres, funda a primeira Academia
Filarmónica, onde revela ao público português a
música de Haydn, Mozart, Beethoven e outros. Em 1835, foi
nomeado director do Conservatório de Música, criado nesse
ano. Entre as suas produções é de realçar uma Missa
de Requiem à Memória de Camões.

Alfredo Keil |
A partir dos meados do
século XIX, surgem as primeiras tentativas de uma ópera de
carácter nacional, mas a influência italiana é ainda
bastante sensível.
Exemplificam esta tendência
Francisco
de Noronha (1820-1881), autor de Beatriz de Portugal
e de O Arco de Santana, e D. Bibas, de José Augusto
Ferreira da Veiga (1838-1903).
Em finais do século, surge
um grupo de compositores dramáticos empenhados na procura
de um caminho de nacionalismo musical de que são exemplos
Alfredo Keil (1850-1907) com A Serrana, Augusto
Machado (1854-1923) com A Triste Viuvinha e Rosas
de todo o Ano e Freitas Gazul (1842-1925) com Frei
Luís de Sousa.
Século XX
No início deste século
começa a registar-se uma mais intensa renovação da vida
musical portuguesa, quer através da acção do
Conservatório de Música e das iniciativas dos Teatros
Nacional de S. Carlos e de S. João, no Porto,
quer da criação de quartetos e orfeões que vão actuando
nos principais centros urbanos do País.
OS COMPOSITORES

Luís
de Freitas Branco |
Entre os impulsionadores
deste movimento de renovação sobressai o compositor Luís
de Freitas Branco (1890-1955), cuja produção se distribui
por obras sinfónicas e de câmara, sendo também importante
pela actividade pedagógica que exerceu. A ele se deve a
influência impressionista na música portuguesa.

Fernando
Lopes-Graça |
Até
meados do século XX são ainda de mencionar: Rui Coelho
(1892-1986), compositor de tendências modernistas;
Frederico de Freitas (1902-1982), talvez o mais eclético
dos compositores do seu tempo; Armando Fernandes (1906-1983)
que se dedicou especialmente á actividade pedagógica e
Jorge Croner de Vasconcelos (1910-1974), conhecido pela sua
acção em prol da pesquisa das origens da música popular;
Fernando Lopes-Graça (1906) aborda quase todos os géneros
vocais e instrumentais, e assumiu papel de relevo devido ao
interesse dedicado à música de raiz popular.

Joly Braga Santos |
Na geração seguinte
impõe-se Joly Braga Santos (1924-1988). A sua 5.ª
Sinfonia foi distinguida pelo Conselho Internacional
da Música (Unesco).
Dos compositores
presentemente em actividade destacam-se Luís Filipe
Pires,
Jorge Peixinho, Álvaro Cassuto, Emanuel
Nunes, Vitorino de Almeida, Constança
Capdeville, Álvaro Salazar e Cândido Lima.
OS INTÉRPRETES
DIRECTORES DE ORQUESTRA

Francisco Lacerda |
Na direcção de
orquestra notabilizou-se, no primeiro quartel deste
século, Francisco Lacerda (1869-1934), que dirigiu cursos
na Schola Cantorum de Paris e ficou célebre pelas
suas interpretações de Ravel, Richard Strauss e Manuel de
Falia.

Miguel Graça Moura |
Presentemente são de
mencionar os maestros Álvaro Cassuto, Álvaro Salazar
(director do grupo de música contemporânea Oficina
Musical), Joaquim Silva Pereira (Orquestra Sinfónica
da RDP), Jorge Mata (Orquestra de Câmara de Lisboa),
Manuel Ivo Cruz (Orquestra do Teatro Nacional de S.
Carlos), Fernando Eldoro (Orquestra e Coro Gulbenkian),
José Atalaya (com grande actividade no âmbito dos
concertos para jovens) e Miguel Graça Moura (Orquestra
Portuguesa da Juventude).
INSTRUMENTISTAS

Vianna da Motta |
As primeiras referências
vão para o pianista Vianna da Motta (1868-1948), considerado
um dos melhores intérpretes mundiais de Bach e de Liszt, e
para Guilhermina Suggia (1878-1950), violoncelista, com uma
carreira internacional que lhe granjeou um lugar entre os
melhores do seu tempo.

Guilhermina Suggia |
Na geração que se afirmou depois de
meados do século, dois pianistas sobressaem a nível
internacional: José Carlos Sequeira Costa e Maria João
Pires.

Maria João Pires |
No entanto, outros
pianistas se têm afirmado com uma importante carreira e
frequentes deslocações ao estrangeiro.
A par de dois
instrumentistas de cordas que têm desenvolvido grande parte
da sua actividade no estrangeiro, o violinista Gerardo
Ribeiro e a violetista Anabela Chaves, outros há com uma
interessante carreira de solista nas orquestras nacionais.

Tomás Alcaide |
No canto teve projecção no início do século
Francisco
Andrade (1859-1921), mas o primeiro cantor lírico
português de renome foi Tomás Alcaide (1901-1967).
No Teatro Nacional de S.
Carlos desenvolveu a sua actividade Hugo Casais, sendo
também esse, no presente, o caso de inúmeros cantores
líricos que paulatinamente vêm afirmando a sua categoria
artística.
Acções a nível oficial,
complementadas por outras de iniciativa privada vêm
reanimando a vida musical portuguesa com concertos,
festivais e concursos.

Fundação
Calouste Gulbenkian |
Em memória de alguns dos
nossos mais notáveis intérpretes foram instituídos
prémios, de que se salientam o Concurso Internacional Viana
da Mota, para o piano, e o Concurso Internacional Francisco de Andrade,
para o canto.
A Fundação Calouste
Gulbenkian tem dado forte incentivo á vida musical:
criou uma orquestra de câmara, um coro, uma companhia de
bailado; promove a realização de festivais e concertos e
patrocina o lançamento de obras musicológicas.
À Secretaria de Estado
da Cultura deve-se, para além de uma acção programada
de divulgação musical, as recentes edições fonográficas
Lusitana Música, dedicada à música antiga, e a
série Discoteca Básica Nacional/Portugalsom,
versando obras do século XVIII ao século XX.
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