Literatura


Introdução


Casa dos Repuxos em Conimbriga

A origem românica da língua portuguesa e a sua evolução são factores determinantes do desenvolvimento da vida literária do País. O latim vingou, pois, como língua de civilização, constituindo o substrato do idioma português.

Devido à influência dos diferentes povos que, por maior ou menor espaço de tempo, ocuparam o território onde viria a surgir Portugal como nação independente, a língua portuguesa foi sofrendo sucessivas transformações.

O aparecimento do português como língua individualizada deu-se a partir do século XIII, na sequência da separação político-administrativa do reino de Portugal face à hegemonia de Castela, tendo, porém, continuado a sofrer alterações. Em meados do século XVI está, no entanto, concluído o essencial na evolução da língua portuguesa.

Idade Média


Iluminura do Cancioneiro da Ajuda

Na Idade Média a literatura faz-se através de duas vias: a oral, que consiste em poemas e narrativas versificadas, transmitida pelos jograis (recitadores, cantores e músicos), cujo repertório é dirigido a um grupo iletrado de vilões, burgueses e nobres, serve-se das línguas locais e inspira-se na vida quotidiana.


Crónica de D. João I, de Fernão Lopes

A 2.ª via é a escrita (prosa e poesia). A prosa teve nos princípios da Idade Média pouca expressão. Resume-se aos livros produzidos nos conventos e reproduzidos pelos copistas e tem como principal finalidade a preparação de clérigos e do serviço religioso. Só com o advento da dinastia de Avis, no século XIV, a literatura portuguesa se pode considerar emancipada. A prosa ganha relevo especial no século XV com Fernão Lopes, o pai da historiografia portuguesa que desempenhou, com grande mérito, o papel de cronista-mor do reino. 

Outros cronistas da época são Gomes Eanes de Zurara (14101474) e Rui de Pina (14401522). É também nessa altura que se inicia uma prosa doutrinal e didáctica original com o rei D. Duarte e o príncipe D. Pedro.


Fragmento de Canções do rei D. Dinis

A poesia trovadoresca galaico-portuguesa foi o estilo mais cultivado nos princípios da Idade Média, tendo seguido duas orientações distintas: uma de origem autóctone, de inspiração popular tradicional - cantigas de amigo - e outra de carácter mais literário e pretensioso, praticada especialmente na corte e que sofre a influência dos trovadores provençais - cantigas de amor. A figura mais representativa das duas orientações referidas foi o rei D. Dinis, considerado o maior poeta português do século XIII. A par destas cantigas, surgem as de escárnio e maldizer, de intenção satírica, que exprime outra faceta, mais realista e vulgar da vida medieval.

Entre meados do século XIV e do século XV houve como que um interregno da produção literária devido a factores sociais e históricos. Só mais tarde, em 1516, é que aparece o Cancioneiro Geral, onde Garcia de Resende coligiu toda a poesia, em português e castelhano, que vai dos meados do século XV até à sua publicação e que retrata o ambiente galante da vida palaciana.

Renascimento

Com o aproximar do final do século XV e devido a condicionalismos de vária ordem, entre os quais se situa a descoberta da Imprensa, surge um movimento de renovação da cultura greco-latina, originando uma concepção do mundo, do homem e dos seus problemas completamente diferente da defendida na Idade Média.

Os promotores deste movimento são os Humanistas. A influência clássica dá origem a uma das épocas mais brilhantes da literatura portuguesa.


Estátua de Gil Vicente

No teatro distingue-se Gil Vicente, cuja actividade dramática se estende de 1502 a 1536 e que, pelo seu extraordinário talento e pela síntese que consegue fazer entre as tradições medievais e as influências humanísticas, pode ser considerado o criador do teatro português. Com uma vasta obra, que vai desde os autos em que predomina a intenção religiosa (Autos das Barcas e da Alma), às tragicomédias de feição histórica ou aristocrática (Exortação da Guerra, Auto da Fama) até às Comédias e Farsas, de assunto ou características populares (Farsa de Inês Pereira, Auto da Índia, Quem tem Farelos?), assiste-se a um verdadeiro desfile de caracteres, tais como o fidalgo pelintra, o escudeiro, o frade, o juiz e a alcoviteira, cujas actuações põem em causa certos princípios sociais.

Paralelamente ao teatro vicentino desenvolve-se o de inspiração renascentista. É o caso de António Ferreira (1528-1569), autor da tragédia Castro que se fundamenta num episódio da história nacional. Também Sá de Miranda e Luís de Camões tentaram o teatro. Do primeiro salienta-se a 1.ª comédia portuguesa em prosa, intitulada Estrangeiros. Do segundo, o Auto de El-Rei Seleuco.


Retrato de Luís de Camões, por Fernão Gomes

Foi, porém, na poesia, que o século XVI se distinguiu. Além de Sá de Miranda (1481-1558) que introduziu em Portugal o soneto irradiado de Itália e de Bernardim Ribeiro (1482-1552) que cultivou a écloga, foi seu mais alto expoente Luís de Camões (1524-1580). Embora se ignore parte da sua biografia, sabe-se que teve uma vida irrequieta e aventurosa, que o levou das costas do Norte de África até à China. Nenhum poeta lírico o excedeu no poder de exteriorizar os sentimentos, no modo como soube utilizar quer os géneros clássicos, quer os tradicionais. Mas foi o poema épico Os Lusíadas que o consagrou universalmente. Trata-se de uma epopeia sobre a viagem de Vasco da Gama à Índia na qual, de maneira engenhosa, Camões relata a história do povo português, evidenciando os seus conhecimentos profundos em todos os domínios da cultura e da ciência.


A Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto

A historiografia e as narrativas de viagens, cuja origem tem a ver com as descobertas marítimas, ocupam também lugar destacado no século XVI. Não se poderá deixar de referir o nome de João de Barros (1496-1570), Fernão Lopes de Castanheda, falecido em 1559 e Damião de Góis (1501-1574), em cujas obras são relatados os descobrimentos portugueses. De salientar também a carta do achamento do Brasil, de Pêro Vaz de Caminha, a Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto (1514-1583) - relato de aventuras vividas pelo autor nas suas viagens pelo Extremo Oriente - e as trágicas narrativas de naufrágios reunidas em volume no século XVIII por Bernardo Gomes de Brito, com o título História Trágico-Marítima.

Século XVII


Auto do Fidalgo Aprendiz, de D. Francisco Manuel de Melo

A produção literária do século XVII não teve grande relevância e originalidade devido, por um lado, à crise política interna (interregno da independência portuguesa sob o governo da dinastia Filipina) que propiciou a influência da cultura castelhana e, por outro, às limitações e cortes impostos pela censura. No entanto, na poesia lírica há que mencionar Rodrigues Lobo (1580-1621), continuador da lírica camoniana, e na historiografia Frei Luís de Sousa (1556-1632), com a obra Vida de Frei Bartolomeu dos Mártires, considerada a biografia mais interessante deste século. Com a restauração da independência nacional, em 1640, a literatura ganhou mais vivacidade, se bem que a poesia continuasse sob a influência do espírito barroco. A poesia desta época foi compilada em duas antologias Fénix Renascida e Postilhão de Apolo.

Duas figuras se destacaram, porém, no panorama literário seiscentista. D. Francisco Manuel de Melo (1608-1666) e o jesuíta padre António Vieira (1608-1697). O primeiro, cuja produção variadíssima abrange a poesia, a história, a crítica social e literária, a moral, a epistolografia e o teatro, foi autor de diversas obras de que se salienta a comédia de costumes Auto do Fidalgo Aprendiz, onde retomou a tradição vicentina; o segundo foi um prosador notável, tendo-se distinguido na oratória com os Sermões, pela facilidade de expressão, riqueza de imagens e diversidade de conceitos.

Século XVIII


Luís António Verney

A confiança nas chamadas luzes da razão, ou seja, no Iluminismo, domina o panorama cultural do século XVIII, em toda a Europa. A Ciência está no centro das preocupações intelectuais.

A estrutura da sociedade portuguesa de então, bem como as exigências impostas pela concorrência internacional nos campos económico, social e político foram os condicionalismos que originaram a necessidade de uma renovação no estilo de vida português.

Destacadas personalidades do meio intelectual que se tinham refugiado no estrangeiro - os estrangeirados -, em consequência da intolerância político-religiosa, foram os arautos dos novos ideais europeus. De entre eles refere-se Luís António Verney (1713-1792) que criticou no Verdadeiro método de Estudar as instituições pedagógicas impregnadas do espírito escolástico e defendeu o ensino baseado na experiência, tal como fez o médico Ribeiro Sanches (1699-1783) na obra intitulada Cartas sobre a Educação da Mocidade. É ainda de considerar o papel da Real Academia das Ciências, criada na sequência da reforma pombalina da Universidade.


Bocage

No campo literário propriamente dito, regressou-se à harmonia e disciplina dos clássicos, como reacção contra o estilo empolado do barroco, surgindo uma nova orientação: o neoclassicismo deve-se aos Árcades, paladinos desta tendência, o regresso à pureza e simplicidade da linguagem. De entre eles é de mencionar os nomes de António Dinis da Cruz e Silva (1731-1799), fundador da Arcádia Lusitana e do padre António Correia Garção (1724-1772), o seu membro de maior prestígio e influência. Na Arcádia Ultramarina, formada no Brasil destaca-se Tomás António Gonzaga (1744-1807), autor do poema Marília de Dirceu.

A par destes nomes, outros surgiram que desempenharam obra meritória no campo das letras: Nicolau Tolentino (1740-1811) que satirizou a sociedade; Barbosa du Bocage (1765-1805) que apresenta duas facetas na sua valorosa produção: a do poeta romântico que canta a paixão e se debruça sobre os sentimentos mais íntimos e a do poeta satírico que ironiza os costumes da época; e a Marquesa de Alorna (1750-1839) em cuja poesia já aparecem certas características românticas. No teatro evidencia-se António José da Silva (1705-1739), autor satírico de peças como a comédia Guerras do Alecrim e Mangerona.

Século XIX

ROMANTISMO


Almeida Garrett

No fim do século XVIII surge, em toda a Europa, o movimento romântico. Em Portugal, foi despoletado pela guerra civil que opôs liberais a absolutistas, obrigando grande número de liberais a emigrar para França e Inglaterra devido à perseguição política. Foram estes intelectuais regressados à Pátria que, imbuídos das ideias culturais europeias, tentaram transformar Portugal num país novo.

Os dois escritores considerados como introdutores do romantismo são Almeida Garrett (1799-1854) e Alexandre Herculano (1810-1877).

A Garrett, poeta, romancista, dramaturgo e renovador do teatro português, se devem os poemas descritivos, Camões e D. Branca, tidos como as primeiras produções românticas. Autor de diversas obras teatrais, delas se salienta, pela densidade psicológica e dinamismo da acção Frei Luís de Sousa, drama que evoca a época da ocupação espanhola. Também é de destacar a narrativa Viagens na Minha Terra pela vivacidade do diálogo e beleza do estilo.


Alexandre Herculano

Alexandre Herculano, combatente liberal como Almeida Garrett, cultivou a poesia, a narrativa e o romance, mas distinguiu-se, sobretudo, no romance histórico, com obras como Eurico, o Presbítero, O Monge de Cister, O Bobo, escritas numa prosa vigorosa. Ao escrever a História de Portugal, situou-se como introdutor da historiografia científica.

Contemporâneo da primeira geração romântica, foi António Feliciano de Castilho (1800-1875), poeta que não atingindo o brilho de Garrett e de Herculano, ficou conhecido como tradutor e, neste campo, desempenhou papel importante no enriquecimento da língua portuguesa.

A primeira fase do romantismo foi essencialmente patriota, democrata, revolucionária, reformista e crítica, tendo em vista a transformação da sociedade e do mundo. O segundo romantismo, porém, torna-se burguês, conservador e abandona a intenção de luta social e política.


Camilo Castelo Branco

Dos escritores da segunda geração romântica impuseram-se Camilo Castelo Branco (1826-1890) e Júlio Dinis (1839-1870). Poder-se-á dizer que Camilo, pelo realismo do diálogo, se situa já na transição para o Realismo em obras de intenção sociológica, mas, por outro lado, atinge o ultra-romantismo no tratamento de temas de carácter psicológico e amoroso. Legou-nos uma obra imensa entre romances e novelas duque se destacam Amor de Perdição, traduzida em várias línguas, a novela satírica Queda de um Anjo e o romance ao gosto realista Eusébio Macário. Júlio Dinis (1839-1871) é o criador do romance campestre. Das descrições minuciosas, porém, sobretudo de interiores, como em Uma Família Inglesa, é já visível o futuro estilo realista. Além desta obra, mantêm ainda hoje grande popularidade As Pupilas do Senhor Reitor, A Morgadinha dos Canaviais e Os Fidalgos da Casa Mourisca.

A poesia desta segunda fase, o Ultra-Romantismo, está imbuída de um sentimentalismo exagerado. Como exemplo se refere Soares dos Passos (1826-1860), cujos poemas são repassados de um lirismo melancólico e doentio.

REALISMO


Antero de Quental

À geração de 70 ou escola de Coimbra se deve a principal manifestação literária da segunda metade do século XIX.

A querela entre o escritor António Feliciano de Castilho e dois estudantes da Lusa Atenas, Teófilo Braga e Antero de Quental, esteve na origem da conhecida Questão Coimbrã ou do Bom Senso e do Bom Gosto em que o velho Castilho critica a atitude literária de alguns jovens escritores de Coimbra. Os dois estudantes contestaram, originando uma polémica que ficou célebre na história da literatura portuguesa.

A par desta manifestação, a nível literário, processa-se outra de carácter político e social. De facto, a segunda parte do século XIX foi marcada por acontecimentos importantes, tais como, o arranque da revolução industrial, o progresso da técnica, o crescimento da população operária em difíceis condições de trabalho e a agitação de certos movimentos nacionalistas. Todo este condicionalismo contribuiu para que a actividade da geração de 70 se orientasse no sentido de uma reacção de carácter polémico contra as ideias românticas.

À frente do movimento encontra-se Antero de Quental (1842-1891) imbuído de ideias socialistas, cuja nobreza de carácter lhe granjeou grande credibilidade junto dos escritores contemporâneos. Cedo, porém, desapareceu da cena literária. Nas Odes Modernas manifesta a sua faceta revolucionária. Os sonetos, de rara e expressiva beleza, reflectem a sua preocupação metafísica.


Eça de Queirós

Na sequência das ideias de Antero de Quental e como apoiantes do movimento realista, destacam-se: Eça de Queirós, Guerra Junqueiro e Oliveira Martins. O primeiro, José Maria Eça de Queirós (1845-1900) foi, pelo estilo inconfundível, pela clareza e luminosidade da prosa e do poder de criar tipos, um dos maiores escritores da língua portuguesa. Escreveu, entre outras obras, O Crime do Padre Amaro (sátira à vida clerical), Os Maias (retrato da vida fútil da alta burguesia brasonada lisboeta), A ilustre Casa de Ramires (sátira à fidalguia provinciana), A Cidade e as Serras (hino de louvor à natureza).

Oliveira Martins (1845-1894) foi, acima de tudo, historiador. Escreveu História da Civilização Ibérica, Portugal Contemporâneo e Os filhos de D. João I.


Guerra Junqueiro

Guerra Junqueiro (1850-1923), na linha da poesia contestatária, é o autor do poema A Velhice do Padre Eterno, tendo-se salientado pela violência da sua sátira contra a monarquia e o clero. No entanto, mais tarde, os seus poemas são de grande harmonia poética como em Os Simples.

Na transição do século XIX para o século XX, outros nomes se afirmam. A actividade político-literária teve representantes notáveis como Fialho de Almeida (1857-1912), autor de Os Gatos; o ensaísta Sampaio Bruno (1857-1915), cujas ideias filosóficas influenciaram grande parte da actividade literária do início do século XX; e Ramalho Ortigão (1836-1915), grande cultor da prosa, que escreveu As Farpas, em colaboração com Eça de Queirós, e Holanda, entre outras obras.

No campo da poesia, muitos são os poetas: João de Deus (1830-1896), poeta e pedagogo, cujas poesias são repassadas de simplicidade e ternura; Gonçalves Crespo (1846-1883), poeta parnasiano; o naturalista Cesário Verde (1855-1886), poeta da sensibilidade visual, da cor, do concreto e da modernidade; António Feijó (1862-1917), requintado e subtil; Eugénio de Castro (1869-1944), o introdutor do Simbolismo em Portugal; Gomes Leal (1848-1921), de rara inspiração lírica e de eloquência por vezes excessiva; Camilo Pessanha (1871-1926), simbolista que viria a influenciar a geração do movimento literário Orpheu, e António Nobre (1867-1903), poeta decadentista do tédio e da tragédia do povo.


António Sardinha

Na década de 90 e já entrando largamente pelo século XX, a literatura tomou um rumo diferente. Destitui-se do carácter combativo dos anos 70, seguindo o caminho proposto pelos tradicionalistas e pelos neogarrettistas que retomavam a linha nacionalista de Garrett. Tal atitude não significava um desejo de regresso à Idade Média, mas o amor por tudo o que é verdadeiramente português. Nesta linha se inserem Afonso Lopes Vieira (1878-1946), Mário Beirão (1892-1962), António Correia de Oliveira (1879-1960) e António Sardinha (1888-1925), poeta que foi simultaneamente dirigente do movimento Integralista Lusitano.


Teixeira de Pascoaes

À parte se situa Teixeira de Pascoaes (1877-1952), poeta idealista e metafísico que, em obras como Regresso ao Paraíso e a Elegia do Amor consubstancia o movimento Saudosismo.

É também na transição para o século XX que Raul Brandão (1867-1930) se inicia como grande prosador. Num estilo descritivo e de rara beleza escreveu Os Pescadores e Portugal Pequenino. Entre as obras teatrais distinguem-se O Gebo e a Sombra e, em colaboração com Teixeira de Pascoaes, O Doido e a Morte.

O teatro e o romance histórico tiveram no final do século, mas prolongando a sua actividade para o século XX, alguns escritores que conquistaram a adesão do público: D. João da Câmara (1852-1907), autor do drama Alcácer Quibir, Júlio Dantas que, entre outras obras, escreveu as peças A Ceia dos Cardeais e O Reposteiro Verde e ainda Jaime Cortesão que, em verso, criou o drama Egas Moniz.

Em 1900 dá-se o desaparecimento do maior romancista, Eça de Queirós. Entretanto, despontava já para as letras uma grande figura, Fernando Pessoa (1888-1935), considerado o maior poeta português depois de Camões.

Século XX


O grupo da Seara Nova

A actividade criadora do início deste século continuou, em muitos aspectos, as coordenadas do fim do século XIX. Entretanto, uma nova consciência dos valores literários ia ganhando vulto.

Foi no Porto, com o grupo da Renascença Portuguesa, que surgiu a primeira tentativa de renovação literária. Deve-se a Teixeira de Pascoaes e a Leonardo Coimbra (1883-1936), entre outros, a criação da revista Águia, que conseguiu reunir muitos escritores responsáveis pelo renascimento literário de então.

Alguns deles participaram depois em movimentos diferenciados, como é o caso de António Sérgio (1883-1963), o mais importante pensador do seu tempo, Jaime Cortesão (1884-1950) pensador, ensaísta e historiador. A estes dois vultos se deve muito especialmente o papel que a revista Seara Nova (1924) desempenhou como órgão de oposição ao Estado Novo.

MODERNISMO

Movimento estético em que a literatura surge associada às artes, caracteriza-se pela alteração formal de vários géneros literários e artísticos e tem nos movimentos Orpheu e Presença a sua melhor expressão.

ORPHEU


O n.º 1 de Orpheu

Recebendo o nome da revista fundada em Lisboa por um grupo de escritores e artistas de vanguarda, distinguiu-se como movimento de características polémicas e reformadoras.

Almada Negreiros (1883-1970) - mais conhecido pela sua vastíssima e importante obra no campo da pintura - foi também poeta e escreveu um dos romances mais significativos da nossa ficção Judith ou Nome de Guerra, além de Invenção do Dia Claro.


Fernando Pessoa

Fernando Pessoa (1888-1935), um dos maiores poetas portugueses, mundialmente conhecido e admirado. Os heterónimos de que se serviu (Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Bernardo Soares), projecções de si próprio, a que deu biografias, características e estilos diferenciados, conferem à sua obra grande originalidade. A produção poética vai da poesia lírica subjectiva aos poemas breves e concentrados, como a Mensagem, até à Poesia de Álvaro Campos, Poemas de Alberto Caeiro e Odes de Ricardo Reis.

Mário de Sá-Carneiro (1890-1916) que, com Fernando Pessoa publicou o primeiro número do Orpheu (1915), foi poeta de grande originalidade de motivos e imagens nos seus livros Dispersão e Poesias.

PRESENÇA


Revista Presença

A revista Presença surgiu em Coimbra, em 1927, e marcou uma nova era para as letras em Portugal. Foram seus principais fundadores José Régio, João Gaspar Simões, Branquinho da Fonseca, tendo mais tarde participado na sua direcção Adolfo Casais Monteiro e Miguel Torga. Os defensores deste segundo modernismo estão empenhados em criar uma literatura viva e original, valorizando, acima de tudo, o individual, o psicológico e a intuição. Pode considerar-se o artigo «Literatura livresca e literatura viva», de José Régio, publicado em 1928, como manifesto deste movimento.

Cultivando vários géneros literários, José Régio salienta-se na poesia com colectâneas como Poemas de Deus e do Diabo e Encruzilhadas de Deus tendo-se destacado também no drama com Benilde ou a Virgem Mãe e Jacob e o Anjo e na ficção com História de Mulheres e A Velha Casa


José Régio

Branquinho da Fonseca (1905-1974) é o mais romancista de todos os presencistas, em cuja obra se reflecte o esteticismo e a arte pura, propugnados pelo movimento. Mar Santo (romance) e a sua obra-prima O Barão (novela), representam o que de mais interessante produziu.

João Gaspar Simões (1903-1987) foi o continuador dos princípios que a Presença defendeu e o mais importante e influente crítico e investigador literário saído daquele movimento. Para além de uma obra ensaística que abrange muitas décadas, legou-nos ainda os romances Elói e Amigos Sinceros

Adolfo Casais Monteiro (1908-1972) embora tenha pertencido à Presença, continuou a ser uma voz inconformista, de grande sensibilidade lírica Poemas do Tempo Incerto e Voo Sem Pássaro Dentro

As revistas do movimento modernista tiveram a virtude de dar a conhecer uma grande plêiade de poetas, de entre os quais se destacam Afonso Duarte (1884-1958) que acompanha todos os movimentos poéticos da primeira metade do século e escreveu, entre outras obras, Ritual do Amor e Sibila; António Botto (1897-1959) que imprimiu à sua poesia um cunho muito especial, tendo publicado vários livros de que se citam Curiosidades Estéticas e Ódio e o Amor.

PERSONALIDADES AUTÓNOMAS


Aquilino Ribeiro

Escritores houve que embora por cronologia biográfica, se tenham aproximado da geração presencista, mantiveram, no entanto, uma rota literária independente: Aquilino Ribeiro (1883-1963), cuja actividade criadora ultrapassou a década de 50 e tão bem retratou o meio social beirão, rústico e urbano, em obras como Terras do Demo, O Malhadinhas e A Casa Grande de Romarigães; Ferreira de Castro (1898-1974), considerado por muitos como o precursor indiscutível da escola neo-realista, cujo romance Emigrantes assinala o início de uma nova fase do realismo social, e se torna mundialmente conhecido com o romance A Selva; João de Araújo Correia (1899-1985), um dos melhores contistas portugueses que escreveu, entre outros, Contos Durienses; Vitorino Nemésio (1901-1978), um dos vultos mais proeminentes da cultura portuguesa, com uma actividade literária que abrange vários volumes de poesia como Eu Comovido a Oeste, o ensaio, a crónica e o romance, de que Mau Tempo no Canal é o exemplo mais célebre; José Rodrigues Miguéis (1901-1981), ficcionista de grande técnica narrativa como em Páscoa Feliz e Léah; Tomás de Figueiredo (1902-1970) revela-se como ficcionista original, sendo A Toca do Lobo o romance que mais o distinguiu; Miguel Torga (1907-1995), uma personalidade autónoma de poeta contista e ficcionista extraordinário, autor de vastíssima obra, de que se cita A Criação do Mundo e O Diário, ambas as obras com vários volumes escritos ao longo dos anos, Bichos e Contos da Montanha.


Florbela Espanca

Embora seja nos anos 50 que irá surgir uma produção literária feminina de qualidade, três escritoras se anteciparam: Maria Amália Vaz de Carvalho (1847-1925), dramaturga e autora de literatura infantil; Irene Lisboa (1892-1958), cuja obra reflecte a observação directa do quotidiano em Título, qualquer serve e Florbela Espanca (1895-1930), conhecida pelos seus sonetos repassados de sensibilidade, Livro de Mágoas e Charneca em Flor.

Do neo-realismo à actualidade

O individualismo exagerado de que a produção literária presencista se revestiu, deu origem, por oposição, à necessidade de uma nova literatura que se preocupasse com classes e não com indivíduos, se projectasse na sociedade e acompanhasse a evolução dos problemas do Homem e do Mundo. Aliás, a literatura mais não fazia do que reflectir a grave situação político-social que se vivia na Europa no 2.° quartel do século XX. Em Portugal esta nova literatura, que viria a designar-se por neo-realista, teve como centros de irradiação Lisboa e Coimbra.

O principal surto do seu florescimento situa-se na década de 40, tendo-se prolongado no tempo.


Aves Redol

As primeiras manifestações teóricas neo-realistas principiam a verificar-se em revistas juvenis como Outro Ritmo, Gleba, Gládio, Ágora, O Diabo e Sol Nascente. Já no início da década de 40, surgem em Coimbra duas colecções literárias: o Novo Cancioneiro (1941-1944) e os Os Novos Prosadores, mas é a revista Vértice, fundada em 1942, a mais duradoura de todas as publicações neo-realistas. Simultaneamente, outros escritores neo-realistas independentes se impunham (Soeiro Pereira Gomes, Alves Redol, Manuel da Fonseca, Romeu Correia), todos estranhos à influência de Coimbra.

A Soeiro Pereira Gomes (1909-1949) se deve a primeira obra notável desta corrente Esteiros; Alves Redol (1911-1969), cujos romances Gaibéus e Barranco de Cegos fizeram dele o mais popular dos escritores neo-realistas; Manuel da Fonseca (1911), neo-realista poético do Alentejo ao escrever Cerromaior e Seara de Vento; Romeu Correia (1917), novelista cuja obra mais importante é o romance Bonecos de Luz.

Também na linha neo-realista, mas saídos do meio universitário de Coimbra, citam-se Fernando Namora, Vergílio Ferreira, Carlos de Oliveira, Mário Braga, muito embora na sua trajectória literária posterior tivessem seguido outros rumos.


Fernando Namora

Fernando Namora iniciou a sua obra literária como poeta. É, porém, como romancista que ganha projecção internacional. Sendo dos escritores mais traduzidos nos diversos idiomas, é autor de extensa obra de que se refere O Trigo e o Joio, Retalhos da Vida de um Médico, Domingo à Tarde e Rio Triste; Vergílio Ferreira (1916), principiou como neo-realista, tendo seguido depois uma directriz muito pessoal na qual se preocupa com os problemas existenciais. Escreveu, entre outros livros: Aparição, Manhã Submersa, Alegria Breve, Conta Corrente, Até ao Fim; Carlos de Oliveira (1921-1981) é, ao mesmo tempo, prosador e poeta e interpreta o mundo estagnado das pequenas aldeias e vilas em Casa na Duna e Uma Abelha na Chuva; Mário Braga (1921), que foi editor e chefe de redacção da revista Vértice, ocupa-se no romance Serranos de temas rústicos, tendo enveredado ainda pela análise psicológica em Corpo Ausente e a crítica política em O Reino Circular.


José Gomes Ferreira

A temática neo-realista não deixou também de influenciar a poesia da década de 40. Estão neste caso poetas como Sidónio Muralha (1920). João José Cochofel (1919-1982), Mário Dionísio (1916). O mais destacado poeta, porém, é José Gomes Ferreira (1900-1985), pela extensão e valor da obra publicada, de que se referem as colectâneas Poesia I, Poesia II, Poesia III.

Na sua evolução o neo-realismo apresenta alternativas fundamentadas na autonomia artística e numa preocupação estética muito intensa da parte de alguns escritores, como é o caso dos poetas José Blanc de Portugal (1914), Rui Cinatti (1915-1986) e Tomaz Kim (1915-1967).


Sophia de Mello Breyner Andresen

Ainda no panorama literário dos anos 40, três poetas se distinguiram pela individualização que imprimiram à sua obra: Jorge de Sena (1914-1978), escritor multifacetado - crítico literário, ficcionista (Andanças do Demónio e Os Grão-Capitães) -, mas foi, acima de tudo, poeta do realismo satírico e do virtuosismo formal em obras como Metamorfoses e Sobre esta Praia; Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004), poetisa de grande sensibilidade, afirma-se ao escrever Mar Novo e Livro Sexto, seguindo-se-lhe vários livros como Dual e Navegação. É também autora de literatura infantil, de que se destaca a colectânea Histórias da Terra e do Mar; Eugénio de Andrade (1923-2005), poeta do ritmo e das imagens metafóricas, alcança lugar de relevo com As Mãos e os Frutos, Memórias doutro Rio e Branco no Branco e mais recentemente Vertentes do Olhar.

ESCRITORES DE VÁRIAS TENDÊNCIAS

Com o aproximar dos anos 50, o neo-realismo não esgotou a sua criação literária. O que aconteceu foi que toda a produção desta época sofreu a influência de correntes já existentes e de outras que foram surgindo.

Várias revistas reflectem as diversas tendências, tais como a revista cultural 57 e Távola Redonda e uma enorme plêiade de escritores surgiu ou se afirmou. Dado o seu volumoso número apenas se referem os mais significativos.

NOVELÍSTICA


José Saramago

José Saramago (1922) que, em poucos anos, se tornou um dos escritores portugueses mais consagrados, com Memorial do Convento, O ano da morte de Ricardo Reis e Jangada de Pedra; Urbano Tavares Rodrigues (1923), influenciado pelo existencialismo de 50, tem uma produção muito vasta com os romances Insubmissos, Uma Pedrada no Charco e Fuga Imóvel; José Cardoso Pires (1925-1998) que aprofundou a sua temática no espírito neo-realista, associou-se a novas concepções e afirmou-se com os romances Delfim, Balada da Praia dos Cães e Alexandra Alpha; Augusto Abelaira (1926-2003), autor que trouxe ao romance o tema da frustração da geração intelectual da sua época em obras como Sem Tecto Entre Ruínas, O Bosque Harmonioso e ainda O Único Animal que... ; David Mourão-Ferreira (1927-1996), poeta, ensaísta, crítico literário, novelista e romancista, escreveu alguns volumes de novelas Gaivotas em Terra e um bem sucedido romance Um Amor Feliz; António Lobo Antunes (1942) que patenteia a sua experiência de psiquiatra em Explicação dos Pássaros e Auto dos Danados. Almeida Faria (1943) caracterizado pela inovação trazida à arte narrativa e ao tratamento das personagens dos seus romances Paixão e Cavaleiro Andante.


Agustina Bessa-Luís

Depois da 2.ª guerra mundial regista-se um desabrochar da literatura feminina, muito embora já antes Fernanda de Castro (1900-1994), poetisa, Maria Lamas (1893-1983), romancista e autora de textos para crianças, Maria Archer (1905-1982), contista e romancista, entre outras, tenham marcado posição nas letras portuguesas. É, porém, a partir da década de 40 que esta posição mais se afirmou com os nomes como: Patrícia Joyce (1913), de cuja obra se destaca o romance O Pecado Invisível; Agustina Bessa-Luís (1922), uma das maiores ficcionistas contemporâneas, tanto no conto como no romance existencial, com obras como A Sibila, As Pessoas Felizes, Fanny Owen e Os Meninos de Ouro; Isabel da Nóbrega (1925) que se impõe como novelista, sendo de referir, no romance, Viver com os Outros e Quadratim; Fernanda Botelho (1926) que traz à novelística o ambiente estudantil universitário do pós-guerra com Ângulo Raso e se reafirmou recentemente com Esta noite sonhei com Brügel ; Maria Velho da Costa (1938) torna-se conhecida com o volume colectivo Novas Cartas Portuguesas, publicado em 1972 de parceria com Maria Isabel Barreno e Maria Teresa Horta, consagrou-se com o romance Maina Mendes, em que revela o mesmo inconformismo feminino, tendo escrito ainda Casas Pardas e Lucialima; e Lídia Jorge (1946), considerada uma das mais importantes revelações portuguesas da ficção deste último quartel do século, produziu romances originais como O Dia dos Prodígios, Notícia da Cidade Silvestre e A Costa dos Murmúrios.

POESIA


David Mourão-Ferreira

Os anos 50 subsequentes foram igualmente muito ricos para a poesia. Uma enorme diversidade de brochuras e revistas (Távola Redonda, Cadernos da Poesia, Árvore, etc.) pôs em evidência várias correntes literárias, desde o Realismo e o Naturalismo a um certo tipo de Neo-Realismo até ao Surrealismo. Muitos foram também os poetas que se evidenciaram: Reinaldo Ferreira (1922-1954), em cuja obra Poemas se patenteia uma extrema humanidade; António Ramos Rosa (1924), autor de uma vastíssima obra, de que se enumeram apenas alguns livros Viagem Através de Uma Nebulosa, Obra Poética, Dinâmica Subtil e Autografias; Sebastião da Gama (1924-1952), poeta da simplicidade, cantou a natureza e o amor puro em Pelo Sonho é que Vamos; Raul de Carvalho (1924-1984), autor de vários livros de poesia, caracterizada pela facilidade e pelo ritmo como Talvez Infância e Novembro Mágico; David Mourão-Ferreira (1927-1996), com uma grande produção poética, a maior parte da qual reunida nos volumes Obra Poética e Antologia Poética, possui uma técnica estilística diversificada e rica; António Gedeão (1906-1997) revela grande originalidade no tratamento dos temas, mesmo nos relacionados com a sua formação científica, em colectâneas como Movimento Perpétuo e Poesias Completas; Mário Cesariny de Vasconcelos (1923-2006) empenhou-se na introdução do surrealismo em Portugal através de trabalhos, textos, revistas e antologias, sendo as obras mais conhecidas Corpo Visível, Poesia e Cidade Queimada; Natália Correia (1923-1993), ensaísta e crítica literária, dramaturga (O Encoberto), romancista (A Madona), é essencialmente poeta de carácter satírico, tendo escrito, entre outras obras, Cântico do País Emerso, Dimensão Encontrada e Poemas a Rebate; António Manuel Couto Viana (1923-1986) com uma forma de sensibilidade muito própria O Avestruz Lírico, dedica-se depois à poesia de cunho tradicional Poesia e Voo Doméstico; Alexandre O'Neill (1924-1986) trouxe para o surrealismo mordacidade satírica e emoção lírica No Reino da Dinamarca, De ombro na ombreira e Entre a cortina e a vidraça; António Maria Lisboa (1928-1953), um dos poetas mais representativos do surrealismo português, em obras como Ossóptico e Isso Ontem único.


Manuel Alegre

Na poesia de contestação política, inúmeros nomes aparecem, citando-se como exemplos os de Manuel Alegre (1937), representante da poesia inconformista em obras como O Canto e as Armas, Chegar aqui; e de José Carlos Ary dos Santos (1937-1984), com um sentido muito apurado de adaptação do texto à música ou à declamação Adereços, Endereços e As Portas que Abril Abriu.

Entre os muitos poetas contemporâneos serão de referir Vasco da Graça Moura (1942), que reflecte a sua erudição em O Mês de Dezembro e Outros Poemas, Instrumentos para a Melancolia, A Sombra das Figuras; João Miguel Fernandes Jorge (1943), autor de Sob Sobre Voz, Tronos e Dominações, Joaquim Manuel Magalhães (1945), poeta e crítico literário, escreveu Poemas, Pelos Caminhos da Manhã e Segredos, Sebes, Aluviões; Nuno Júdice (1947) que disserta ironicamente sobre os problemas existenciais Nos Braços da Exígua Luz, A Partilha dos Mitos.

Teatro


António Pedro

A crescente concorrência do cinema, da rádio e depois da televisão enfraqueceu a já débil base institucional do teatro português. As companhias profissionais e amadoras existentes quase só em Lisboa, mantinham-se com dificuldade, tendo o Fundo de Teatro e a Fundação Calouste Gulbenkian contribuído com subsídios, sendo ainda de referir o contributo de associações cooperativas de público. É nesta base que assenta, por exemplo, nos anos 50, o Teatro Experimental do Porto, uma das mais duradouras tentativas de teatro experimental, inicialmente sob a direcção artística de António Pedro.

O aspecto propriamente literário da dramaturgia portuguesa recente vai desde uma rápida retrospectiva do teatro historicista e naturalista até aos principais dramaturgos de hoje. A transição existe já na orientação de alguns autores como Vasco Mendonça Alves (1883-1962), João Correia de Oliveira (1881-1960), Alfredo Cortês (1880-1946), Ramada Curto (1886-1961), Carlos Selvagem (1890-1973), Samuel Maia (1874-1951).

Desses dramaturgos, merece especial atenção Ramada Curto, o escritor mais produtivo do teatro português na primeira metade do século XX. São dele as obras O Homem que se arranjou e Fogo de Vista.

Nem todos os autores que escreveram para o teatro foram exclusivamente dramaturgos, muitos deles evidenciaram-se até mais noutros géneros literários. É o caso de Raul Brandão, de escritores do Orpheu e da Presença, de Aquilino Ribeiro, Alves Redol, Agustina Bessa-Luís, David Mourão-Ferreira, Cesariny de Vasconcelos, Natália Correia, José Cardoso Pires, Augusto Abelaira, etc.

Vários são os dramaturgos que se revelaram a partir dos anos 40 como Costa Ferreira (1918), com as peças Um dia de Vida e Um Homem Só; Luís Francisco Rebelo (1924), estudioso de teatro, que escreveu, entre outras Alguém terá que Morrer e Os Pássaros de Asas Cortadas; Orlando Vitorino (1924), autor de Nem Amantes nem Amigos e Tongatabu; Romeu Correia (1917-1996) que transporta as preocupações neo-realistas para o teatro O Casaco de Fogo e O Vagabundo das Mãos de Ouro; Miguel Franco (1918-1988) visando as lutas de classe em O Motim.


Bernardo Santareno

No entanto, é Bernardo Santareno (1924-1980) que se salientou nos últimos decénios como a personalidade mais forte no campo da dramaturgia. De grande imaginação dialogal e cénica, aliada a uma inspiração de natureza sentimental, erótica e religiosa, escreveu, entre outras obras, O Crime da Aldeia Velha, António Marinheiro, O Judeu e Português, Escritor, 45 Anos de Idade


Luís de Sttau Monteiro

A consagração deste dramaturgo junta-se a de Luís de Sttau Monteiro (1926-1993), escritor de intervenção, que procurou adaptar os temas e situações das suas peças à realidade política de então, e cuja técnica é influenciada por Brecht. Felizmente há Luar, Todos os Anos na Primavera, As Mãos de Abraão Zacuto são disso exemplo. Digna de menção é ainda Luzia Maria Martins, empresária teatral e autora de Alma Sem Mundo e Bocage.


Fiama Hasse Pais Brandão

Outros autores, dados a conhecer em colectâneas universitárias, surgem ligados ao experimentalismo formal poético e ao realismo social. Destacam-se com trabalhos de teatro Fiama Hasse Pais Brandão (1938) que se inicia com Os Chapéus de Chuva e se afirma com A Campanha e Quem move as Árvores e Augusto Sobral (1933) que revela as suas qualidades de dramaturgo em Os Degraus e posteriormente em Memórias de uma Mulher Fatal e A Morte de Alfred Man

A extinção da censura, após o 25 de Abril, permitiu o aparecimento de grupos teatrais não-comercialistas destinados a um novo público popular, possibilitando uma descentralização da representação por todo o País, pelo que foram levadas à cena peças de autores anteriormente proibidas, quer portuguesas quer estrangeiras.

Entre os jovens dramaturgos contemporâneos merece atenção especial Miguel Rovisco (1959-1987), cuja morte prematura impediu que se revelasse totalmente, mas que foi autor de várias peças das quais se destaca Trilogia Portuguesa.

 

 


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