Literatura
Introdução

Casa dos Repuxos
em Conimbriga |
A
origem românica
da língua portuguesa e a sua evolução são factores
determinantes do desenvolvimento da vida literária do País.
O latim vingou, pois, como língua de civilização,
constituindo o substrato do idioma português.
Devido
à influência dos diferentes povos que, por maior ou menor
espaço de tempo, ocuparam o território onde viria a surgir
Portugal como nação independente, a língua portuguesa foi
sofrendo sucessivas transformações.
O
aparecimento do português como língua individualizada
deu-se a partir do século XIII, na sequência da separação
político-administrativa do reino de Portugal face à hegemonia de Castela, tendo, porém, continuado a sofrer
alterações. Em meados do século XVI está, no entanto,
concluído o essencial na evolução da língua portuguesa.
Idade
Média

Iluminura do Cancioneiro
da Ajuda |
Na
Idade Média a literatura faz-se através de duas vias: a oral, que consiste em poemas e narrativas versificadas,
transmitida pelos jograis (recitadores, cantores e músicos),
cujo repertório é dirigido a um grupo iletrado de vilões,
burgueses e nobres, serve-se das línguas locais e
inspira-se na vida quotidiana.

Crónica de D.
João I, de Fernão Lopes |
A
2.ª via é a escrita (prosa e poesia). A prosa teve nos
princípios da Idade Média pouca expressão. Resume-se aos
livros produzidos nos conventos e reproduzidos pelos
copistas e tem como principal finalidade a preparação de
clérigos e do serviço religioso. Só com o advento da
dinastia de Avis, no século XIV, a literatura portuguesa se
pode considerar emancipada. A prosa ganha relevo especial no
século XV com Fernão Lopes, o pai da historiografia
portuguesa que desempenhou, com grande mérito, o papel de
cronista-mor do reino.
Outros cronistas da época são
Gomes
Eanes de Zurara (14101474) e Rui de Pina (14401522). É também
nessa altura que se inicia uma prosa doutrinal e didáctica
original com o rei D. Duarte e o príncipe D.
Pedro.

Fragmento de
Canções do rei D. Dinis |
A
poesia trovadoresca galaico-portuguesa foi o estilo mais
cultivado nos princípios da Idade Média, tendo seguido
duas orientações distintas: uma de origem autóctone, de
inspiração popular tradicional - cantigas de amigo - e
outra de carácter mais literário e pretensioso, praticada
especialmente na corte e que sofre a influência dos
trovadores provençais - cantigas de amor. A figura mais
representativa das duas orientações referidas foi o rei D.
Dinis, considerado o maior poeta português do século
XIII.
A par destas cantigas, surgem as de escárnio e maldizer, de
intenção satírica, que exprime outra faceta, mais
realista e vulgar da vida medieval.
Entre
meados do século XIV e do século XV houve como que um
interregno da produção literária devido a factores
sociais e históricos. Só mais tarde, em 1516, é que
aparece o Cancioneiro
Geral, onde Garcia de Resende coligiu toda a poesia, em
português e castelhano, que vai dos meados do século XV até
à sua publicação e que retrata o ambiente galante da vida
palaciana.
Renascimento
Com
o aproximar do final do século XV e devido a
condicionalismos de vária ordem, entre os quais se situa a
descoberta da Imprensa, surge um movimento de renovação da
cultura greco-latina, originando uma concepção do mundo,
do homem e dos seus problemas completamente diferente da
defendida na Idade Média.
Os
promotores deste movimento são os Humanistas. A influência
clássica dá origem a uma das épocas mais brilhantes da
literatura portuguesa.

Estátua de Gil
Vicente |
No
teatro distingue-se Gil Vicente, cuja actividade dramática
se estende de 1502 a 1536 e que, pelo seu extraordinário
talento e pela síntese que consegue fazer entre as tradições
medievais e as influências humanísticas, pode ser
considerado o criador do teatro português. Com uma vasta
obra, que vai desde os autos em que predomina a intenção
religiosa (Autos das Barcas e da
Alma), às tragicomédias
de feição histórica ou aristocrática (Exortação da
Guerra, Auto da Fama) até às Comédias e Farsas, de
assunto ou características populares (Farsa de Inês
Pereira, Auto da Índia,
Quem tem Farelos?), assiste-se a um
verdadeiro desfile de caracteres, tais como o fidalgo
pelintra, o escudeiro, o frade, o juiz e a alcoviteira,
cujas actuações põem em causa certos princípios sociais.
Paralelamente
ao teatro vicentino desenvolve-se o de inspiração
renascentista. É o caso de António Ferreira (1528-1569),
autor da tragédia Castro
que se fundamenta num episódio da história nacional.
Também Sá de Miranda e Luís de Camões tentaram o teatro.
Do primeiro salienta-se a 1.ª comédia portuguesa
em prosa, intitulada Estrangeiros.
Do segundo, o Auto
de El-Rei Seleuco.

Retrato de Luís
de Camões, por Fernão Gomes |
Foi,
porém, na poesia, que o século XVI se distinguiu. Além de
Sá de Miranda (1481-1558) que introduziu em Portugal o
soneto irradiado de Itália e de Bernardim Ribeiro
(1482-1552) que cultivou a écloga, foi seu mais alto
expoente Luís de Camões (1524-1580). Embora se ignore
parte da sua biografia, sabe-se que teve uma vida irrequieta
e aventurosa, que o levou das costas do Norte de África até
à China. Nenhum poeta lírico o excedeu no poder de
exteriorizar os sentimentos, no modo como soube utilizar
quer os géneros clássicos, quer os tradicionais. Mas foi o
poema épico Os Lusíadas que o consagrou universalmente. Trata-se de uma epopeia
sobre a viagem de Vasco da Gama à Índia na qual, de
maneira engenhosa, Camões relata a história do povo
português, evidenciando os seus conhecimentos profundos em
todos os domínios da cultura e da ciência.

A Peregrinação,
de Fernão Mendes Pinto |
A
historiografia e as narrativas de viagens, cuja origem tem a
ver com as descobertas marítimas, ocupam também lugar
destacado no século XVI. Não se poderá deixar de referir
o nome de João de Barros (1496-1570), Fernão Lopes de
Castanheda, falecido em 1559 e Damião de Góis (1501-1574),
em cujas obras são relatados os descobrimentos portugueses.
De salientar também a carta do achamento
do Brasil, de Pêro Vaz de Caminha, a
Peregrinação, de
Fernão Mendes Pinto (1514-1583) - relato de aventuras
vividas pelo autor nas suas viagens pelo Extremo Oriente - e
as trágicas narrativas de naufrágios reunidas em volume no
século XVIII por Bernardo Gomes de Brito, com o título
História
Trágico-Marítima.
Século
XVII

Auto do
Fidalgo Aprendiz, de D. Francisco Manuel de Melo |
A
produção literária do século XVII não teve grande relevância
e originalidade devido, por um lado, à crise política
interna (interregno da independência portuguesa sob o
governo da dinastia Filipina) que propiciou a influência da
cultura castelhana e, por outro, às limitações e cortes
impostos pela censura. No entanto, na poesia lírica há que
mencionar Rodrigues Lobo (1580-1621), continuador da lírica
camoniana, e na historiografia Frei Luís de Sousa
(1556-1632), com a obra Vida
de Frei Bartolomeu dos Mártires, considerada a
biografia mais interessante deste século. Com a restauração
da independência nacional, em 1640, a literatura ganhou
mais vivacidade, se bem que a poesia continuasse sob a influência
do espírito barroco. A poesia desta época foi compilada em
duas antologias Fénix
Renascida e Postilhão de Apolo.
Duas
figuras se destacaram, porém, no panorama literário
seiscentista. D. Francisco Manuel de Melo (1608-1666) e o
jesuíta padre António Vieira (1608-1697). O primeiro, cuja
produção variadíssima abrange a poesia, a história, a crítica
social e literária, a moral, a epistolografia e o teatro,
foi autor de diversas obras de que se salienta a comédia de
costumes Auto do
Fidalgo Aprendiz, onde retomou a tradição vicentina; o
segundo foi um prosador notável, tendo-se distinguido na
oratória com os Sermões,
pela facilidade de expressão, riqueza de imagens e
diversidade de conceitos.
Século
XVIII

Luís António Verney |
A
confiança nas chamadas luzes
da razão, ou seja, no Iluminismo,
domina o panorama cultural do século XVIII, em toda a
Europa. A Ciência está no centro das preocupações
intelectuais.
A
estrutura da sociedade portuguesa de então, bem como as
exigências impostas pela concorrência internacional nos
campos económico, social e político foram os
condicionalismos que originaram a necessidade de uma renovação
no estilo de vida português.
Destacadas
personalidades do meio intelectual que se tinham refugiado
no estrangeiro - os estrangeirados
-, em consequência da intolerância político-religiosa,
foram os arautos dos novos ideais europeus. De entre eles
refere-se Luís António Verney (1713-1792) que criticou no Verdadeiro
método de Estudar as instituições pedagógicas
impregnadas do espírito escolástico e defendeu o ensino
baseado na experiência, tal como fez o médico Ribeiro
Sanches (1699-1783) na obra intitulada Cartas
sobre a Educação da Mocidade.
É ainda
de considerar o papel da Real Academia das Ciências, criada
na sequência da reforma pombalina da Universidade.

Bocage |
No
campo literário propriamente dito, regressou-se à harmonia
e disciplina dos clássicos, como reacção contra o estilo
empolado do barroco, surgindo uma nova orientação: o
neoclassicismo deve-se aos Árcades, paladinos desta tendência,
o regresso à pureza e simplicidade da linguagem. De entre
eles é de mencionar os nomes de António Dinis da Cruz e
Silva (1731-1799), fundador da Arcádia Lusitana e do padre
António Correia Garção (1724-1772), o seu membro de maior
prestígio e influência. Na Arcádia Ultramarina, formada
no Brasil destaca-se Tomás António Gonzaga (1744-1807),
autor do poema Marília
de Dirceu.
A
par destes nomes, outros surgiram que desempenharam obra
meritória no campo das letras: Nicolau Tolentino
(1740-1811) que satirizou a sociedade; Barbosa du Bocage
(1765-1805) que apresenta duas facetas na sua valorosa produção:
a do poeta romântico que canta a paixão e se debruça
sobre os sentimentos mais íntimos e a do poeta satírico
que ironiza os costumes da época; e a Marquesa de Alorna
(1750-1839) em cuja poesia já aparecem certas características
românticas. No teatro evidencia-se António José da Silva
(1705-1739), autor satírico de peças como a comédia
Guerras do Alecrim e Mangerona.
Século
XIX
ROMANTISMO

Almeida
Garrett |
No
fim do século XVIII surge, em toda a Europa, o movimento
romântico. Em Portugal, foi despoletado
pela guerra civil que opôs liberais a absolutistas,
obrigando grande número de liberais a emigrar para França
e Inglaterra devido à perseguição política. Foram estes
intelectuais regressados à Pátria que, imbuídos das
ideias culturais europeias, tentaram transformar Portugal
num país novo.
Os
dois escritores considerados como introdutores do romantismo
são Almeida Garrett (1799-1854) e Alexandre Herculano
(1810-1877).
A
Garrett, poeta, romancista, dramaturgo e renovador do teatro
português, se devem os poemas descritivos, Camões
e D.
Branca, tidos
como as primeiras produções românticas. Autor de diversas
obras teatrais, delas se salienta, pela densidade psicológica
e dinamismo da acção Frei Luís de
Sousa, drama que evoca a época da ocupação
espanhola. Também é de destacar a narrativa Viagens
na Minha Terra pela vivacidade do diálogo e beleza do
estilo.

Alexandre
Herculano |
Alexandre
Herculano, combatente liberal como Almeida Garrett, cultivou
a poesia, a narrativa e o romance, mas distinguiu-se,
sobretudo, no romance histórico, com obras como Eurico,
o Presbítero, O Monge de
Cister, O
Bobo, escritas numa
prosa vigorosa. Ao escrever a História
de Portugal, situou-se como introdutor da historiografia
científica.
Contemporâneo
da primeira geração romântica, foi António Feliciano de
Castilho (1800-1875), poeta que não atingindo o brilho de
Garrett e de Herculano, ficou conhecido como tradutor e,
neste campo, desempenhou papel importante no enriquecimento
da língua portuguesa.
A
primeira fase do romantismo foi essencialmente patriota,
democrata, revolucionária, reformista e crítica, tendo em
vista a transformação da sociedade e do mundo. O segundo
romantismo, porém, torna-se burguês, conservador e
abandona a intenção de luta social e política.

Camilo
Castelo Branco |
Dos
escritores da segunda geração romântica impuseram-se
Camilo Castelo Branco (1826-1890) e Júlio Dinis
(1839-1870). Poder-se-á dizer que Camilo, pelo realismo do
diálogo, se situa já na transição para o Realismo em
obras de intenção sociológica, mas, por outro lado,
atinge o ultra-romantismo no tratamento de temas de carácter
psicológico e amoroso. Legou-nos uma obra imensa entre
romances e novelas duque se destacam Amor
de Perdição, traduzida em várias línguas, a novela
satírica Queda de um
Anjo e o romance ao gosto realista Eusébio
Macário. Júlio
Dinis (1839-1871)
é o criador do romance campestre. Das descrições
minuciosas, porém, sobretudo de interiores, como em Uma
Família Inglesa, é já visível o futuro estilo
realista. Além desta obra, mantêm ainda hoje grande
popularidade As
Pupilas do Senhor Reitor, A Morgadinha dos Canaviais e
Os Fidalgos da Casa
Mourisca.
A
poesia desta segunda fase, o Ultra-Romantismo, está imbuída
de um sentimentalismo exagerado. Como exemplo se refere
Soares dos Passos (1826-1860), cujos poemas são repassados
de um lirismo melancólico e doentio.
REALISMO

Antero
de Quental |
À
geração de 70 ou
escola de Coimbra se deve a principal manifestação
literária da segunda metade do século XIX.
A querela entre
o escritor António Feliciano de Castilho e dois estudantes
da Lusa Atenas, Teófilo Braga e Antero de
Quental, esteve
na origem da conhecida Questão
Coimbrã ou do Bom
Senso e do Bom Gosto em que o velho Castilho critica a
atitude literária de alguns jovens escritores de Coimbra.
Os dois estudantes contestaram, originando uma polémica que
ficou célebre na história da literatura portuguesa.
A
par desta manifestação, a nível literário, processa-se
outra de carácter político e social. De facto, a segunda
parte do século XIX foi marcada por acontecimentos
importantes, tais como, o arranque da revolução
industrial, o progresso da técnica, o crescimento da população
operária em difíceis condições de trabalho e a agitação
de certos movimentos nacionalistas. Todo este
condicionalismo contribuiu para que a actividade da geração
de 70 se orientasse no sentido de uma reacção de carácter
polémico contra as ideias românticas.
À
frente do movimento encontra-se Antero de Quental
(1842-1891) imbuído de ideias socialistas, cuja nobreza de
carácter lhe granjeou grande credibilidade junto dos
escritores contemporâneos. Cedo, porém, desapareceu da
cena literária. Nas Odes
Modernas manifesta a sua faceta revolucionária. Os
sonetos, de rara e expressiva beleza, reflectem a sua
preocupação metafísica.

Eça
de Queirós |
Na
sequência das ideias de Antero de Quental e como apoiantes
do movimento realista, destacam-se: Eça de Queirós,
Guerra
Junqueiro e Oliveira Martins. O primeiro, José Maria Eça
de Queirós (1845-1900) foi, pelo estilo inconfundível,
pela clareza e luminosidade da prosa e do poder de criar
tipos, um dos maiores escritores da língua portuguesa.
Escreveu, entre outras obras, O Crime
do Padre Amaro (sátira à vida clerical),
Os Maias
(retrato da vida fútil da alta burguesia brasonada
lisboeta), A ilustre Casa de Ramires (sátira à fidalguia provinciana), A
Cidade e as Serras (hino de louvor à natureza).
Oliveira
Martins (1845-1894) foi, acima de tudo, historiador.
Escreveu História da
Civilização Ibérica, Portugal Contemporâneo e
Os filhos
de D. João I.

Guerra
Junqueiro |
Guerra
Junqueiro (1850-1923), na linha da poesia contestatária, é
o autor do poema A
Velhice do Padre Eterno, tendo-se salientado pela violência
da sua sátira contra a monarquia e o clero. No entanto,
mais tarde, os seus poemas são de grande harmonia poética
como em Os
Simples.
Na
transição do século XIX para o século XX, outros nomes
se afirmam. A actividade político-literária teve
representantes notáveis como Fialho de Almeida (1857-1912),
autor de Os Gatos; o
ensaísta
Sampaio Bruno (1857-1915), cujas ideias filosóficas
influenciaram grande parte da actividade literária do início
do século XX; e Ramalho Ortigão (1836-1915), grande cultor
da prosa, que escreveu As
Farpas, em colaboração com Eça de Queirós, e Holanda,
entre outras obras.
No
campo da poesia, muitos são os poetas: João de Deus
(1830-1896), poeta e pedagogo, cujas poesias são repassadas
de simplicidade e ternura; Gonçalves Crespo (1846-1883),
poeta parnasiano; o naturalista Cesário Verde (1855-1886),
poeta da sensibilidade visual, da cor, do concreto e da
modernidade; António Feijó (1862-1917), requintado e
subtil; Eugénio de Castro (1869-1944), o introdutor do
Simbolismo em Portugal; Gomes Leal (1848-1921), de rara
inspiração lírica e de eloquência por vezes excessiva;
Camilo Pessanha (1871-1926), simbolista que viria a
influenciar a geração do movimento literário Orpheu, e
António Nobre (1867-1903), poeta decadentista do tédio e
da tragédia do povo.

António
Sardinha |
Na
década de 90 e já entrando largamente pelo século XX, a
literatura tomou um rumo diferente. Destitui-se do carácter
combativo dos anos 70, seguindo o caminho proposto pelos
tradicionalistas e pelos neogarrettistas
que retomavam a linha nacionalista de Garrett. Tal
atitude não significava um desejo de regresso à Idade Média,
mas o amor por tudo o que é verdadeiramente português.
Nesta linha se inserem Afonso Lopes Vieira (1878-1946),
Mário
Beirão (1892-1962), António Correia de Oliveira
(1879-1960) e António Sardinha (1888-1925), poeta que foi
simultaneamente dirigente do movimento Integralista Lusitano.

Teixeira
de Pascoaes |
À
parte se situa Teixeira de Pascoaes (1877-1952), poeta
idealista e metafísico que, em obras como Regresso
ao Paraíso e a Elegia
do Amor consubstancia o movimento
Saudosismo.
É
também na transição para o século XX que Raul Brandão
(1867-1930) se inicia como grande prosador. Num estilo
descritivo e de rara beleza escreveu Os Pescadores
e Portugal
Pequenino. Entre as obras teatrais distinguem-se O
Gebo e a Sombra e, em colaboração com Teixeira de
Pascoaes, O Doido e a Morte.
O
teatro e o romance histórico tiveram no final do século,
mas prolongando a sua actividade para o século XX, alguns
escritores que conquistaram a adesão do público: D. João
da Câmara (1852-1907), autor do drama Alcácer
Quibir, Júlio Dantas que, entre outras obras, escreveu
as peças A Ceia dos
Cardeais e
O Reposteiro
Verde e ainda Jaime Cortesão que, em verso, criou o
drama Egas Moniz.
Em
1900 dá-se o desaparecimento do maior romancista, Eça de
Queirós. Entretanto, despontava já para as letras uma
grande figura, Fernando Pessoa (1888-1935), considerado o
maior poeta português depois de Camões.
Século
XX

O
grupo da Seara Nova |
A
actividade criadora do início deste século continuou, em
muitos aspectos, as coordenadas do fim do século XIX.
Entretanto, uma nova consciência dos valores literários ia
ganhando vulto.
Foi
no Porto, com o grupo da Renascença
Portuguesa, que surgiu a primeira tentativa de renovação
literária. Deve-se a Teixeira de Pascoaes e a Leonardo
Coimbra (1883-1936), entre outros, a criação da revista Águia,
que conseguiu reunir muitos escritores responsáveis
pelo renascimento literário de então.
Alguns
deles participaram depois em movimentos diferenciados, como
é o caso de António Sérgio (1883-1963), o mais importante
pensador do seu tempo, Jaime Cortesão (1884-1950) pensador,
ensaísta e historiador. A estes dois vultos se deve muito
especialmente o papel que a revista Seara
Nova (1924) desempenhou como órgão de oposição ao
Estado Novo.
MODERNISMO
Movimento
estético em que a literatura surge associada às artes,
caracteriza-se pela alteração formal de vários géneros
literários e artísticos e tem nos movimentos Orpheu
e Presença a
sua melhor expressão.
ORPHEU

O
n.º 1 de Orpheu |
Recebendo
o nome da revista fundada em Lisboa por um grupo de
escritores e artistas de vanguarda, distinguiu-se como
movimento de características polémicas e reformadoras.
Almada
Negreiros (1883-1970) - mais conhecido pela sua vastíssima
e importante obra no campo da pintura - foi também poeta e
escreveu um dos romances mais significativos da nossa ficção
Judith ou Nome de
Guerra, além de Invenção do Dia Claro.

Fernando
Pessoa |
Fernando
Pessoa (1888-1935), um dos maiores poetas portugueses,
mundialmente conhecido e admirado. Os heterónimos de que se
serviu (Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos e
Bernardo Soares), projecções de si próprio, a que deu
biografias, características e estilos diferenciados,
conferem à sua obra grande originalidade. A produção poética
vai da poesia lírica subjectiva aos poemas breves e
concentrados, como a Mensagem, até à Poesia de Álvaro
Campos, Poemas de Alberto Caeiro e Odes de Ricardo Reis.
Mário
de Sá-Carneiro (1890-1916) que, com Fernando Pessoa
publicou o primeiro número do Orpheu
(1915), foi poeta de grande originalidade de motivos e
imagens nos seus livros Dispersão
e Poesias.
PRESENÇA

Revista
Presença |
A
revista Presença surgiu
em Coimbra, em 1927, e marcou uma nova era para as letras em
Portugal. Foram seus principais fundadores José Régio,
João Gaspar Simões, Branquinho da Fonseca, tendo mais tarde
participado na sua direcção Adolfo Casais Monteiro e
Miguel Torga. Os defensores deste segundo modernismo estão
empenhados em criar uma literatura viva e original,
valorizando, acima de tudo, o individual, o psicológico e a
intuição. Pode considerar-se o artigo «Literatura
livresca e literatura viva», de José Régio, publicado em
1928, como manifesto deste movimento.
Cultivando vários géneros
literários, José Régio salienta-se na poesia com colectâneas
como Poemas de Deus e do Diabo e
Encruzilhadas de
Deus tendo-se destacado também no drama com Benilde
ou a Virgem Mãe e Jacob e o Anjo e na ficção
com História de Mulheres e A Velha Casa.

José
Régio |
Branquinho da Fonseca (1905-1974) é o mais romancista de
todos os presencistas, em cuja obra se reflecte o
esteticismo e a arte pura, propugnados pelo movimento. Mar
Santo (romance) e a sua obra-prima O Barão
(novela), representam o que de mais interessante produziu.
João
Gaspar
Simões (1903-1987) foi o continuador dos princípios que a Presença
defendeu e o mais importante e influente crítico e
investigador literário saído daquele movimento. Para além
de uma obra ensaística que abrange muitas décadas,
legou-nos ainda os romances Elói e Amigos
Sinceros.
Adolfo
Casais Monteiro (1908-1972) embora tenha pertencido à Presença, continuou a ser uma voz inconformista, de grande
sensibilidade lírica Poemas do Tempo Incerto e
Voo Sem Pássaro
Dentro.
As
revistas do movimento modernista tiveram a virtude de dar a
conhecer uma grande plêiade de poetas, de entre os quais se
destacam Afonso Duarte (1884-1958) que acompanha todos os
movimentos poéticos da primeira metade do século e
escreveu, entre outras obras, Ritual do Amor e Sibila;
António Botto (1897-1959) que imprimiu à sua poesia um cunho muito
especial, tendo publicado vários livros de que se citam
Curiosidades Estéticas e Ódio e o Amor.
PERSONALIDADES
AUTÓNOMAS

Aquilino
Ribeiro |
Escritores
houve que embora por cronologia biográfica, se tenham
aproximado da geração presencista, mantiveram, no entanto,
uma rota literária independente: Aquilino Ribeiro
(1883-1963), cuja actividade criadora ultrapassou a década
de 50 e tão bem retratou o meio social beirão, rústico e
urbano, em obras como Terras do Demo, O
Malhadinhas e A Casa Grande de Romarigães;
Ferreira de Castro (1898-1974), considerado por muitos como
o precursor indiscutível da escola neo-realista, cujo
romance Emigrantes assinala o início de uma nova fase do
realismo social, e se torna mundialmente conhecido com o
romance A Selva; João de Araújo Correia
(1899-1985), um dos melhores contistas portugueses que
escreveu, entre outros, Contos Durienses; Vitorino
Nemésio (1901-1978), um dos vultos mais proeminentes da
cultura portuguesa, com uma actividade literária que
abrange vários volumes de poesia como Eu Comovido a
Oeste, o ensaio, a crónica e o romance, de que
Mau
Tempo no Canal é o exemplo mais célebre; José
Rodrigues Miguéis (1901-1981), ficcionista de grande técnica
narrativa como em Páscoa Feliz e Léah; Tomás
de Figueiredo (1902-1970) revela-se como ficcionista
original, sendo A Toca do Lobo o romance que mais o
distinguiu; Miguel Torga (1907-1995), uma personalidade autónoma
de poeta contista e ficcionista extraordinário, autor de
vastíssima obra, de que se cita A Criação do Mundo
e O Diário, ambas as obras com vários volumes
escritos ao longo dos anos, Bichos e Contos
da Montanha.

Florbela
Espanca |
Embora
seja nos anos 50 que irá surgir uma produção literária
feminina de qualidade, três escritoras se anteciparam:
Maria Amália Vaz de Carvalho (1847-1925), dramaturga e
autora de literatura infantil; Irene Lisboa (1892-1958),
cuja obra reflecte a observação directa do quotidiano em Título,
qualquer serve e Florbela Espanca (1895-1930), conhecida
pelos seus sonetos repassados de sensibilidade, Livro de
Mágoas e Charneca em Flor.
Do
neo-realismo à
actualidade
O
individualismo exagerado de que a produção literária
presencista se revestiu, deu origem, por oposição, à necessidade de uma nova literatura que se preocupasse com
classes e não com indivíduos, se projectasse na sociedade
e acompanhasse a evolução dos problemas do Homem e do
Mundo. Aliás, a literatura mais não fazia do que reflectir
a grave situação político-social que se vivia na Europa
no 2.° quartel do século XX. Em Portugal esta nova
literatura, que viria a designar-se por neo-realista, teve
como centros de irradiação Lisboa e Coimbra.
O
principal surto do seu florescimento situa-se na década de
40, tendo-se prolongado no tempo.

Aves
Redol |
As
primeiras manifestações teóricas neo-realistas principiam
a verificar-se em revistas juvenis como Outro Ritmo,
Gleba, Gládio, Ágora, O Diabo
e Sol Nascente. Já no início da década de 40, surgem
em Coimbra duas colecções literárias: o Novo
Cancioneiro (1941-1944) e os Os Novos Prosadores, mas é
a revista Vértice, fundada em 1942, a mais duradoura de
todas as publicações neo-realistas. Simultaneamente,
outros escritores neo-realistas independentes se impunham (Soeiro
Pereira Gomes, Alves
Redol, Manuel da
Fonseca, Romeu
Correia), todos estranhos à influência de Coimbra.
A
Soeiro Pereira Gomes (1909-1949) se deve a primeira obra notável
desta corrente Esteiros;
Alves Redol (1911-1969), cujos romances Gaibéus e
Barranco de Cegos fizeram dele o mais popular dos escritores
neo-realistas; Manuel da Fonseca (1911), neo-realista poético
do Alentejo ao escrever Cerromaior e
Seara de
Vento; Romeu Correia (1917), novelista cuja obra mais
importante é o romance Bonecos de Luz.
Também
na linha neo-realista, mas saídos do meio universitário de
Coimbra, citam-se Fernando Namora,
Vergílio Ferreira,
Carlos de Oliveira, Mário
Braga, muito embora na sua
trajectória literária posterior tivessem seguido outros
rumos.

Fernando
Namora |
Fernando
Namora iniciou a sua obra literária como poeta. É, porém,
como romancista que ganha projecção internacional. Sendo
dos escritores mais traduzidos nos diversos idiomas, é
autor de extensa obra de que se refere O
Trigo e o Joio,
Retalhos da Vida de um Médico, Domingo
à
Tarde
e Rio Triste; Vergílio Ferreira (1916), principiou como
neo-realista, tendo seguido depois uma directriz muito
pessoal na qual se preocupa com os problemas existenciais.
Escreveu, entre outros livros: Aparição, Manhã Submersa, Alegria Breve, Conta
Corrente, Até ao Fim;
Carlos de Oliveira (1921-1981) é, ao mesmo tempo,
prosador e poeta e interpreta o mundo estagnado das pequenas
aldeias e vilas em Casa na Duna e Uma Abelha na
Chuva; Mário Braga (1921), que foi editor e chefe de
redacção da revista Vértice,
ocupa-se no romance Serranos
de temas rústicos, tendo enveredado ainda pela análise
psicológica em Corpo Ausente e a crítica política em O Reino Circular.

José
Gomes Ferreira |
A
temática neo-realista não deixou também de influenciar a
poesia da década de 40. Estão neste caso poetas como Sidónio
Muralha (1920). João José Cochofel (1919-1982),
Mário
Dionísio (1916). O mais destacado poeta, porém, é José
Gomes Ferreira (1900-1985), pela extensão e valor da obra
publicada, de que se referem as colectâneas Poesia I,
Poesia II, Poesia III.
Na
sua evolução o neo-realismo apresenta alternativas
fundamentadas na autonomia artística e numa preocupação
estética muito intensa da parte de alguns escritores, como
é o caso dos poetas José Blanc de Portugal (1914),
Rui
Cinatti (1915-1986) e Tomaz Kim (1915-1967).

Sophia de Mello Breyner Andresen |
Ainda
no panorama literário dos anos 40, três poetas se
distinguiram pela individualização que imprimiram à sua
obra: Jorge de Sena (1914-1978), escritor multifacetado - crítico
literário, ficcionista (Andanças
do Demónio e Os Grão-Capitães)
-, mas foi, acima de tudo, poeta do realismo satírico e
do virtuosismo formal em obras como Metamorfoses
e Sobre esta Praia; Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004), poetisa de grande
sensibilidade, afirma-se ao escrever Mar
Novo e Livro
Sexto, seguindo-se-lhe vários livros como Dual
e Navegação. É
também
autora de literatura infantil, de que se destaca a colectânea
Histórias da Terra e
do Mar; Eugénio de Andrade (1923-2005), poeta do ritmo e das
imagens metafóricas, alcança lugar de relevo com As
Mãos e os Frutos, Memórias doutro Rio e Branco
no Branco e mais recentemente Vertentes
do Olhar.
ESCRITORES
DE VÁRIAS TENDÊNCIAS
Com
o aproximar dos anos 50, o neo-realismo não esgotou a sua
criação literária. O que aconteceu foi que toda a produção
desta época sofreu a influência de correntes já
existentes e de outras que foram surgindo.
Várias
revistas reflectem as diversas tendências, tais como a
revista cultural 57 e Távola
Redonda e uma enorme plêiade de escritores surgiu ou se
afirmou. Dado o seu volumoso número apenas se referem os
mais significativos.
NOVELÍSTICA

José
Saramago |
José
Saramago (1922) que, em poucos anos, se tornou um dos
escritores portugueses mais consagrados, com Memorial do
Convento, O ano da morte de Ricardo Reis e Jangada
de Pedra; Urbano Tavares Rodrigues (1923), influenciado
pelo existencialismo de 50, tem uma produção muito vasta
com os romances Insubmissos,
Uma Pedrada no Charco e Fuga
Imóvel; José Cardoso Pires (1925-1998) que aprofundou a sua
temática no espírito neo-realista, associou-se a novas
concepções e afirmou-se com os romances Delfim,
Balada da Praia dos Cães e Alexandra
Alpha; Augusto Abelaira (1926-2003), autor que trouxe ao
romance o tema da frustração da geração intelectual da
sua época em obras como Sem
Tecto Entre Ruínas, O Bosque Harmonioso e ainda
O Único Animal que... ; David Mourão-Ferreira (1927-1996), poeta, ensaísta,
crítico literário, novelista e romancista, escreveu alguns
volumes de novelas Gaivotas
em Terra e um bem sucedido romance Um
Amor Feliz; António Lobo Antunes (1942) que patenteia a
sua experiência de psiquiatra em Explicação
dos Pássaros e
Auto
dos Danados. Almeida Faria (1943) caracterizado pela
inovação trazida à arte narrativa e ao tratamento das
personagens dos seus romances Paixão
e Cavaleiro
Andante.

Agustina
Bessa-Luís |
Depois
da 2.ª guerra mundial regista-se um desabrochar da
literatura feminina, muito embora já antes Fernanda de
Castro (1900-1994), poetisa,
Maria Lamas (1893-1983), romancista e
autora de textos para crianças, Maria Archer (1905-1982),
contista e romancista, entre outras, tenham marcado posição
nas letras portuguesas. É, porém, a partir da década de
40 que esta posição mais se afirmou com os nomes como:
Patrícia Joyce (1913), de cuja obra se destaca o romance
O Pecado
Invisível; Agustina Bessa-Luís (1922), uma das maiores
ficcionistas contemporâneas, tanto no conto como no romance
existencial, com obras como A
Sibila, As Pessoas
Felizes, Fanny Owen e Os Meninos de
Ouro; Isabel da Nóbrega (1925) que se impõe como
novelista, sendo de referir, no romance, Viver
com os Outros e Quadratim; Fernanda Botelho (1926) que
traz à novelística o ambiente estudantil universitário do
pós-guerra com Ângulo Raso e se reafirmou recentemente com Esta noite sonhei com Brügel
; Maria Velho da Costa (1938) torna-se
conhecida com o volume colectivo Novas
Cartas Portuguesas, publicado em 1972 de parceria com
Maria Isabel Barreno e Maria Teresa
Horta, consagrou-se com
o romance Maina
Mendes, em que revela o mesmo inconformismo feminino, tendo
escrito ainda Casas
Pardas e Lucialima; e
Lídia Jorge (1946), considerada uma das mais
importantes revelações portuguesas da ficção deste último
quartel do século, produziu romances originais como O Dia
dos Prodígios, Notícia da Cidade Silvestre
e A
Costa dos Murmúrios.
POESIA

David
Mourão-Ferreira |
Os
anos 50 subsequentes foram igualmente muito ricos para a
poesia. Uma enorme diversidade de brochuras e revistas
(Távola Redonda, Cadernos da
Poesia, Árvore, etc.)
pôs em evidência
várias correntes literárias, desde o Realismo e o
Naturalismo a um certo tipo de Neo-Realismo até ao
Surrealismo. Muitos foram também os poetas que se
evidenciaram: Reinaldo Ferreira (1922-1954), em cuja obra Poemas se patenteia uma extrema humanidade; António Ramos Rosa
(1924), autor de uma vastíssima obra, de que se enumeram
apenas alguns livros Viagem
Através de Uma Nebulosa, Obra
Poética, Dinâmica Subtil e
Autografias; Sebastião
da Gama (1924-1952), poeta da simplicidade, cantou a
natureza e o amor puro em Pelo
Sonho é que Vamos; Raul de Carvalho (1924-1984), autor
de vários livros de poesia, caracterizada pela facilidade e
pelo ritmo como Talvez
Infância e Novembro
Mágico; David Mourão-Ferreira (1927-1996), com uma grande
produção poética, a maior parte da qual reunida nos
volumes Obra Poética e
Antologia Poética,
possui uma técnica estilística diversificada e rica;
António Gedeão (1906-1997) revela grande originalidade no
tratamento dos temas, mesmo nos relacionados com a sua formação
científica, em colectâneas como Movimento
Perpétuo e Poesias
Completas; Mário Cesariny de Vasconcelos (1923-2006)
empenhou-se na introdução do surrealismo em Portugal através
de trabalhos, textos, revistas e antologias, sendo as obras
mais conhecidas Corpo
Visível, Poesia e Cidade
Queimada; Natália Correia (1923-1993), ensaísta e crítica
literária, dramaturga (O Encoberto), romancista (A
Madona), é essencialmente poeta de carácter satírico,
tendo escrito, entre outras obras, Cântico
do País Emerso, Dimensão Encontrada e Poemas
a Rebate; António Manuel Couto Viana (1923-1986) com
uma forma de sensibilidade muito própria O Avestruz
Lírico, dedica-se depois à poesia de cunho tradicional
Poesia
e Voo Doméstico;
Alexandre O'Neill (1924-1986) trouxe para o surrealismo
mordacidade satírica e emoção lírica No
Reino da Dinamarca, De ombro na ombreira e Entre
a cortina e a vidraça; António Maria Lisboa
(1928-1953), um dos poetas mais representativos do
surrealismo português, em obras como Ossóptico e Isso
Ontem único.

Manuel
Alegre |
Na
poesia de contestação política, inúmeros nomes aparecem,
citando-se como exemplos os de Manuel Alegre (1937),
representante da poesia inconformista em obras como O Canto
e as Armas,
Chegar
aqui; e de José Carlos Ary dos
Santos (1937-1984), com um sentido muito apurado de adaptação
do texto à música ou à declamação Adereços,
Endereços e As
Portas que Abril Abriu.
Entre
os muitos poetas contemporâneos serão de referir Vasco da
Graça Moura (1942), que reflecte a sua erudição em O Mês de Dezembro e Outros
Poemas, Instrumentos para a
Melancolia, A
Sombra das Figuras; João Miguel Fernandes Jorge (1943),
autor de Sob Sobre
Voz, Tronos e
Dominações, Joaquim Manuel Magalhães
(1945), poeta e crítico literário, escreveu Poemas,
Pelos Caminhos da Manhã e
Segredos,
Sebes, Aluviões; Nuno Júdice (1947) que disserta
ironicamente sobre os problemas existenciais Nos
Braços da Exígua Luz,
A Partilha dos Mitos.
Teatro

António
Pedro |
A
crescente concorrência do cinema, da rádio e depois da
televisão enfraqueceu a já débil base institucional do
teatro português. As companhias profissionais e amadoras
existentes quase só em Lisboa, mantinham-se com
dificuldade, tendo o Fundo de Teatro e a Fundação Calouste
Gulbenkian contribuído com subsídios, sendo ainda de
referir o contributo de associações cooperativas de público.
É nesta base que assenta, por exemplo, nos anos 50, o
Teatro Experimental do Porto, uma das mais duradouras
tentativas de teatro experimental, inicialmente sob a direcção
artística de António Pedro.
O
aspecto propriamente literário da dramaturgia portuguesa
recente vai desde uma rápida retrospectiva do teatro
historicista e naturalista até aos principais dramaturgos
de hoje. A transição existe já na orientação de alguns
autores como Vasco Mendonça Alves (1883-1962), João
Correia de Oliveira (1881-1960), Alfredo Cortês
(1880-1946), Ramada Curto (1886-1961), Carlos Selvagem
(1890-1973), Samuel Maia (1874-1951).
Desses
dramaturgos, merece especial atenção Ramada Curto, o
escritor mais produtivo do teatro português na primeira
metade do século XX. São dele as obras O
Homem
que se arranjou e Fogo
de Vista.
Nem
todos os autores que escreveram para o teatro foram
exclusivamente dramaturgos, muitos deles evidenciaram-se até
mais noutros géneros literários. É o caso de Raul
Brandão,
de escritores do Orpheu
e da Presença, de Aquilino Ribeiro, Alves Redol, Agustina Bessa-Luís,
David Mourão-Ferreira, Cesariny de Vasconcelos, Natália
Correia, José Cardoso Pires, Augusto Abelaira, etc.
Vários
são os dramaturgos que se revelaram a partir dos anos 40
como Costa Ferreira (1918), com as peças Um
dia de Vida e Um
Homem Só; Luís Francisco Rebelo (1924), estudioso de
teatro, que escreveu, entre outras Alguém
terá que Morrer e
Os Pássaros
de Asas Cortadas; Orlando Vitorino (1924), autor de
Nem
Amantes nem Amigos e Tongatabu;
Romeu Correia (1917-1996) que transporta as preocupações
neo-realistas para o teatro O
Casaco
de Fogo e
O Vagabundo das Mãos de
Ouro; Miguel Franco (1918-1988) visando as lutas
de classe em O Motim.

Bernardo
Santareno |
No
entanto, é Bernardo Santareno (1924-1980) que se salientou
nos últimos decénios como a personalidade mais forte no
campo da dramaturgia. De grande imaginação dialogal e cénica,
aliada a uma inspiração de natureza sentimental, erótica
e religiosa, escreveu, entre outras obras, O
Crime da Aldeia Velha, António
Marinheiro, O Judeu e
Português,
Escritor, 45 Anos de Idade.

Luís de Sttau Monteiro |
A consagração deste
dramaturgo junta-se a de Luís de Sttau Monteiro (1926-1993), escritor de
intervenção, que procurou adaptar os temas e situações
das suas peças à realidade política de então, e cuja técnica
é influenciada por Brecht. Felizmente
há Luar, Todos os Anos na
Primavera, As Mãos de Abraão
Zacuto são disso exemplo. Digna de menção é ainda
Luzia Maria Martins, empresária teatral e autora de Alma
Sem Mundo e Bocage.

Fiama Hasse
Pais Brandão |
Outros
autores, dados a conhecer em colectâneas universitárias,
surgem ligados ao experimentalismo formal poético e ao
realismo social. Destacam-se com trabalhos de teatro Fiama
Hasse Pais Brandão (1938) que se inicia com Os Chapéus
de Chuva e se afirma com A
Campanha e
Quem
move as Árvores e
Augusto Sobral (1933) que revela as
suas qualidades de dramaturgo em Os
Degraus e posteriormente em Memórias
de uma Mulher Fatal e A
Morte de Alfred Man.
A extinção da censura, após o 25
de Abril, permitiu o aparecimento de grupos teatrais não-comercialistas
destinados a um novo público popular, possibilitando uma
descentralização da representação por todo o País, pelo
que foram levadas à cena peças de autores anteriormente
proibidas, quer portuguesas quer estrangeiras.
Entre
os jovens dramaturgos contemporâneos merece atenção
especial Miguel Rovisco (1959-1987), cuja morte prematura
impediu que se revelasse totalmente, mas que foi autor de várias
peças das quais se destaca Trilogia
Portuguesa.
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