Artes Decorativas
O Azulejo

Mosaico romano da
Casa dos Repuxos, Conímbriga |
O azulejo, a par da
talha dourada, da pintura ornamental, dos mármores
embutidos, das madeiras entalhadas e dos estuques, ocupa uma
posição particularmente importante nas artes decorativas,
quer pelo elevado nível artístico que alcançou, quer
pelas características que imprimiu no interior dos
edifícios religiosos e civis dos séculos XVI a XVIII, ao
decorá-lo e revesti-lo com belíssimos painéis de delicada
composição e suave colorido.
A divisão dos
revestimentos em diversos planos e a constante utilização
de cercaduras intermédias e envolventes permitiram á
azulejaria exercer um papel moderador e regularizador da
arquitectura, homogeneizando todos os elementos ornamentais
associados.
Encontramos os primeiros
vestígios nos pavimentos do Mosteiro de Alcobaça
(séc. XIII), mas a sua introdução efectiva situa-se no
século XV, com a importação de azulejos hispano-mouriscos
de Valência, Sevilha e Marrocos.
Séculos XVI e XVII

Azulejos
hispano-árabes do século XVI, Sé Velha de Coimbra |
No início do século XVI,
a utilização do azulejo mudéjar importado, obtido pelas
técnicas de corda seca e aresta, era utilizado em vastos
conjuntos arquitectónicos (Sé Velha de Coimbra, Paço
Real de Sintra), formando esquemas ornamentais
próprios, denotando já o processo decorativo português.
Em meados deste século,
outros centros produtores - Antuérpia, Talavera de Ia Reina
e Lisboa - fornecem o País em azulejos, realizados na
técnica da majólica, com pintura livre aplicada
sobre uma camada de esmalte branco. São notáveis os
exemplos da Quinta da Bacalhoa, em Azeitão, e de uma
capela da Igreja de S. Roque (assinados por Francisco
Matos) em Lisboa, que denotam influência italo-flamenga,
maneirista. São igualmente importantes as encomendas para a
Quinta das Torres, em Azeitão, e para o Palácio
do Duque de Bragança, em Vila Viçosa, vindos de
Antuérpia e de Talavera de la Reina.

Revestimento de
azulejos, do século XVI, de uma sala do Palácio da
Vila de Sintra |
Com a decadência
económica, acrescida do domínio filipino, os azulejos
sofrem um certo declínio, passando a ser produzidos em
oficinas artesanais por artífices modestos, que depuram os
revestimentos, reduzindo-os a concisa expressão
geométrica, decorando-os depois em função da concepção
estrutural do espaço, criando o azulejo de tapete,
reproduzindo diversos padrões em tons de azul, amarelo,
verde, laranja e tom de vinho sobre fundo branco.
Pretendia-se o impacto visual dos ornatos e a sua perfeita
integração na arquitectura, que o século XVII se
encarrega de elevar ao preenchimento total dos espaços
vazios arquitectónicos. Imitam-se tecidos lavrados ricos,
integram-se painéis ingénuos representando cenas
hagiográficas e da vida de Cristo.
A contínua
especialização dos mestres azulejadores condu-los a outras
fontes de inspiração, recorrendo a uma policromia rica e
variada (Capela de Sto. Amaro, Lisboa), e a temas
profanos aplicados em painéis figurativos, em pintura azul
e branca - influenciada pela porcelana do período Ming - e
cujo exemplar mais notável é o Palácio dos Marqueses
de Fronteira, em Lisboa.
A padronagem policroma vai
sendo substituída pelas soluções a azul e branco (Igreja
de Carnaxide, Lisboa), desenvolvendo-se novos tipos como
os silhares de cestos ou de potes floridos (Igreja da
Madre de Deus, Lisboa) ou como azulejos de figura
avulsa, de origem holandesa (Casa do Paço, Figueira
da Foz).
Século XVIII

Painel historiado
de azulejos na porta principal da vila amuralhada de
Óbidos |
Gabriel del Barco,
utilizando uma escala monumental nos painéis e uma pintura
densa e expressiva, inscrita na corrente barroca, vai
provocar a aceleração cultural dos pintores de azulejos,
para fazerem face á concorrência holandesa. O Ciclo dos
Mestres, pela alta qualidade estética atingida, marca este
período. Manuel dos Santos e António Pereira assinam
notáveis realizações, tanto em Portugal como no Brasil,
destacando-se, igualmente, António e Policarpo de Oliveira
Bernardes, que realizam extraordinários conjuntos barrocos,
caracterizados pela complexidade da concepção e pela
requintada expressão pictural (Igreja da Misericórdia,
Évora; Igreja de S. Domingos, Benfica; Misericórdia
de Viana do Castelo).
O período joanino
traduz-se numa extroversão barroca, através da
representação de conjuntos arquitectónicos monumentais (Convento
de S. Vicente de Fora, Lisboa). Esta importância
decorativa e teatral do azulejo é manifesta nas obras de
Teotónio dos Santos, de Valentino de Almeida e da parceria
Bartolomeu Antunes-Nicolau de Freitas.
A policromia reaparece com
o rococó, patente no jardim da Quinta dos Azulejos,
em Lisboa, e ao longo do Canal no jardim do
Palácio de Queluz. A reconstrução de Lisboa, após o
terramoto de 1755, obriga á produção de grandes
quantidades de azulejos, caracterizados pela fluidez dos
ornatos e pela variedade e contraste das cores usadas, tanto
em painéis figurados como em composições ornamentais
livres, ou nas padronagens de fins meramente decorativos (Palácio
Pombal, Oeiras).
Séculos XIX e XX

«Episódio da
vida do chapeleiro António Joaquim Carneiro» - cerca
de 1800. Museu Nacional do Azulejo |
O azulejo neoclássico,
inspirado na pintura a fresco, apresenta efeitos decorativos
singelos e de cores variadas produzidas pela Real
Fábrica do Rato e pelo pintor Francisco de Paula e
Oliveira. Mas é a conjugação de plumas, fitas e
grinaldas, enquadrando pequenas cenas, pintadas a azul ou
roxo sobre fundo branco, que caracteriza este período.
Após a revolução
liberal, emerge a burguesia, e com ela os prédios de
rendimento, decorados por azulejos de características
semi-industriais e simplificados.
A produção industrial
(estampilha manual ou industrial) vai apresentar séries
decorativas repetitivas, que irão ser utilizadas em muitas
povoações. Sobressai Luís Ferreira, o Ferreira das
Tabuletas, e José da Silva, que evocam a azulejaria do
passado.
Rafael Bordalo Pinheiro, na
Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha, realiza
azulejaria relevada, quer naturalista, quer revivalista ou
Arte Nova, caracterizada pelos magníficos vidrados e
esmaltes.
A Arte Nova teve em José
Jorge Pinto um característico pintor de painéis
figurativos, para além de inúmeros frisos e composições
que decoram fachadas urbanas.

Painel de
azulejos de Vieira da Silva no átrio da estação do
Metropolitano da Cidade Universitária |
A azulejaria Art Déco,
geometrizante, é produzida nas fábricas de Sacavém
(decoração aerografada) e Lusitânia (decoração
relevada), em Lisboa.
Jorge Colaço, revivalista,
pinta cenas historicistas e saudosistas (Palace Hotel do
Buçaco).
A partir dos anos 40, uma
nova tendência se desenha no azulejo: Jorge Barradas é o
seu iniciador, mas outros nomes se evidenciam também, como
Manuel Cargaleiro, Querubim Lapa e Almada
Negreiros.
Os arquitectos,
influenciados por Keil do Amaral, redescobrem o azulejo,
introduzindo obras tão diversificadas como as de Maria
Keil,
Sá Nogueira, Júlio Pomar, Relógio, Eduardo
Néry, Resende, onde motivos figurativos geométricos e abstractos
se conjugam com a busca da expressividade proporcionada.
Ao contrário do azulejo,
as restantes artes decorativas obedecem a ritmos de
desenvolvimento mais lentos, persistindo, assim, por longo
tempo, soluções maneiristas ou de gosto indo-português.
Pela sua função utilitária ou sumptuária, convertem-se
em agentes de um décor barroco.
Ourivesaria

Custódia de
Belém, século XVI |
No século XVI, a
ourivesaria traduz um carácter tardo-renascença, sóbrio,
que evolui para soluções mais ricas (Custódia de Santa
Clara-a-Velha, Coimbra). No século XVII assiste-se ao
renovar da ourivesaria litúrgica: o túmulo da Rainha
Santa, em Coimbra, o trono e o sacrário das
Comendadeiras de Avis, em Lisboa. Na ourivesaria civil,
as bandejas, gomis, salvas e taças apresentam formas e
decorações originais, numa linha classicizante.

Imagem
proveniente do tesouro da Rainha Santa Isabel, século
XVII, Coimbra |
O século XVIII foi marcado
sucessivamente pela influência italiana, francesa, inglesa
e soluções franco-inglesas. Dos quatro períodos, o
primeiro continua as soluções do século anterior,
correspondendo os outros aos reinados de D. João V
(barroco), D. José (rocaille) e D. Maria
(neoclássico). Ludovice introduz a influência italiana (Custódia
da Bemposta, Lisboa).
O barroco joanino exprime-se numa
ourivesaria civil apoiada no ouro brasileiro, igualmente de
inspiração italiana. A influência francesa manifesta-se
na baixela de François Thomas (Museu Nacional de
Arte Antiga, Lisboa). O rocaille explode nos
requintados bules, travessas e salvas de prata, com
decoração de folhagens, rosas e volutas, oriundos, em
grande parte, do Norte do País. O século XIX mostra a
influência inglesa (Adam), que se desdobra em motivos
romanos, esfinges e ninfas.
O século XX segue a
tradição oitocentista, apesar de algumas peças, de
influência Arte Nova e Art Déco, aparecerem.
O design de ourives só muito recentemente se afirmou.
Mobiliário

Arca de
vinhática e pau-santo, da segunda metade do século
XVIII. MNAA, Lisboa |
Se o século XVI mostra a
influência indo-portuguesa nos contadores e mesas, o
século XVII define as peças portuguesas, como as cadeiras
de pés direitos, com assento e costas de couro lavrado,
seguindo-se as formas torneadas, de pés redondos. As camas
são de cabeceira, com decoração de influência indiana.
Os armários são do tipo-holandês ou pintados, ou ainda de
almofadas. Mas o mobiliário indo-português permanece,
aliando formas e decorações orientais com outras de
iconografia portuguesa.

Cadeira de D.
José, século XVIII |
O século XVIII, dominado
pelo barroco, caracteriza-se por formas recortadas,
onduladas e torsas, por curvas e contra-curvas e pela
ornamentação assimétrica do rocaille. O
mobiliário joanino destaca-se pela profusão de formas
(armários com portas pintadas com chinoiseries, cómodas) e
decorações.
O móvel inglês Queen
Anne e Cippendale aparece durante o reinado de D.
Maria I com variações entre Luís XVI e Adam - pés
rectos e canelados, molduras simples -, enquanto o século
XIX apela às soluções neoclássicas.
O neoclássico oitocentista
apresenta armários de gavetas e vidrinhos. O estilo
Império, com abuso de bronzes com motivos pompeianos, cede
lugar aos gostos revivalistas de fim de século - o estilo
catedral ou trovador. A Arte Nova e a Art Déco
anunciam novas formas que perdurarão até aos anos 30,
substituídas galhardamente por um estilo internacional,
desenraizado e moderno.
Faiança

Pote de faiança
portuguesa da primeira metade do século XVII. Museu
da Cidade, Lisboa |
Lisboa foi, durante largo
tempo, centro receptor e distribuidor de loiça chinesa e
japonesa. Esta influência encontra-se patente nas
produções nacionais, aliando ainda soluções espanholas
(louça azul e branca com coelhos e leões). Os pratos de
aranhões, pós 1670, e os de desenho miúdo figurando
motivos chineses adaptados, são os mais procurados.

Prato de faiança
portuguesa da segunda metade do século XVII. MNAA,
Lisboa |
O século XVIII apresenta
faiança de inspiração chinesa (da família verde), mas
continua com a decoração seiscentista. Influências das
loiças europeias (Saxe e Inglaterra) encontram eco no
Marquês de Pombal, que contribui para o surto de novas
fábricas Rato, Cavaquinho (Porto), Darque
(Viana do Castelo), Brioso e Sta. Clara
(Coimbra) e Estremoz. A decoração era leve, policroma ou
monocroma, com cercaduras e diversos esmaltes.
Em 1824 é fundada a Vista
Alegre, iniciando-se a produção de porcelana. A Fábrica
de Sacavém (1858) vai dominar a produção nacional, em
detrimento de outras fábricas de faiança. A Fábrica
das Caldas da Rainha produz as peças criadas por Rafael
Bordalo Pinheiro, cuja fama ultrapassará fronteiras.
No século XX assiste-se à
continuação dos produtos de Sacavém, bem como á
introdução de novas soluções na fábrica SPAL,
para além da produção industrial pouco diversificada. A Vista
Alegre aposta em soluções decorativas, com incursões
no design contemporâneo - serviço Gulbenkian,
enquanto Darque e Coimbra mantêm as
soluções decorativas dos séculos XVIII e XIX.
Outras artes decorativas

Tapete de
Arraiolos |
Os tapetes de Arraiolos
(séc. XVII), influenciados pelos tapetes persas, recorrem a
material mais nobre e a padrões mais simples. No século
XVIII, a decoração floral encontra-se mais próxima das
soluções francesas de Aubusson.

Vitral do
Mosteiro dos Jerónimos, século XV |
O século XVIII assiste ao
renascimento da indústria das sedas, com o ressurgir da Real
Fábrica das Sedas, que importa tecnologia e know-how
de origem francesa.
Em Castelo Branco
bordam-se colchas a fio de seda sobre linho ou outro
material, cuja decoração se circunscreve á árvore da
vida. O seu formulário socializa-se para se tornarem nas colchas
de noivar, ingénuas, mas encantadoras.
O vidro, da Real
Fábrica de Coina à Fábrica do Covo, sem
exceptuar a Fábrica Stephens, acompanha as
produções estrangeiras mais em voga, não descurando
algumas peças de concepção nacional, onde se integram
copos e garrafas. A produção contemporânea exprime-se por
uma procura de qualidade e circunscreve-se ás fábricas
de cristalaria dos Irmãos Stephen e da Irima, na
Marinha Grande, e a fábrica da Atlantis, em
Alcobaça, revelando esta última grandes esforços no campo
do design moderno.
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